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De capacete e batom

De capacete e batom

Road Miles Chalenge: 300 milhas de emoções!

Fomos ao Road Miles - Motorcycle RoadBook Challenge.

Não resistimos à provocação. Desafio, superação, e um percurso cheiinho de belas paisagens eram atrativos mais do que suficientes para nos convencerem, e, por isso, quando ele acenou com o convite, ou eu, já não sei bem, antes que o outro dissesse que sim, já estávamos inscritos...

Só depois reparei que o evento estava direcionado para a vertente moto turística de aventura. Bem, a minha Branquinha não é bem o que se pode considerar uma moto turística de aventura, mas aventureira, ela é, e gosta de rolar, por isso, à chegada... o costume! Uma pequena entre grandes. O marido diz que ela é como o papagaio dos 102 dálmatas que estava convencido que era um cão e gritava :"Sou um rotweiler! Sou um rotweiler!". A minha Branquinha também deve julgar que é grande: "Sou uma big trail! sou uma big trail!" 

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O Road Miles foi uma montanha russa de emoções. Não pelos quilómetros percorridos (já o ano passado tínhamos feito os 700 de uma das etapas do Portugal de lés-a-lés), mas pelo espírito de ultrapassar aquelas curvas (eu e as curvas em descidas, e a velocidade...) e chegar ao fim e continuar, ainda, a gostar de andar de mota. Gosto. Ainda!

A nossa base, e ponto de encontro, era o Hotel dos Templários, em Tomar (sim, sim, nem só de poeira e tendas de campismo vive um motociclista!). Cada um de nós seguiu pelo caminho mais longo, porque a logística familiar obriga a estes desvios de fazer sempre mais umas centenas de quilómetros. Mas, chegados, houve tempo para um mergulhinho na piscina, um jantarzinho a namorar, uma cerveja nas ruas de Tomar, que estava em festa, mesmo antes do briefing, onde a Organização (nota 10!!) nos acenou com um passeio repleto de boas curvas!

Na hora de partir, o sol começava a brilhar lá atrás e prometia-nos um dia maravilhoso! Nós agarrámos a deixa, e deixámo-nos levar guiados por ele e pelo RoadBook.

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O percurso foi, como anunciado, marcado por lugares bonitos, para ver, conhecer, visitar. De Tomar a Tomar, pela Nazaré, S. Martinho do Porto, Alcobaça, Chamusca, Serra de Aires e Candeeiros, Olhos de Água , Mação, Oleiros, Dornes... Mas os quilómetros pela frente não nos deixavam descuidar; bem, os quilómetros e o rapaz da GSA que vai à minha frente e que me deixa de cabelos em pé, porque acha sempre que passa muito tempo à minha espera. Ainda assim, consegui enganá-lo nas primeiras paragens e tirar umas fotografias.

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Lugares cheios de história e com muitas histórias com gente lá dentro. Gente que vamos conhecendo, gente com quem nos identificamos, nisto e naquilo, e com quem temos sempre em comum a paixão pelas motas.

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A paragem em Oleiros, na praia fluvial, onde fomos tão bem recebidos, deu para recarregar energias, mas à medida que o desafio avançava sentia-me mais cansada e fui percebendo que talvez estivesse apenas a ser egoísta por querer fazer equipa com o meu amor grande. Foi uma visão nova destes eventos! Afinal, se é verdade que eu o consigo acompanhar, só o consigo fazer porque ele vai muuuiiiito mais devagar do que o que decerto gostaria, por outro lado, ele segue à frente, mas com uma constante preocupação de que eu venha logo ali atrás, e, depois, bem, depois, eu quero que ele se divirta! E, no final, à chegada ao Hotel não lhe disse as palavras do costume "voltamos outra vez no próximo!", mas antes "tens de começar a vir sozinho!". Ele olhou para mim com aquele ar de "estás doida!" e disse-me " mas eu quero vir contigo! Eu gosto de vir contigo!"

E pronto! Tentei não pensar mais no assunto, porque, depois de 500 quilómetros de estrada, sabe mesmo, mesmo bem, chegares ao Hotel, beberes um gin, e ouvires o pianista tocar uma música agradável, enquanto respiras um pouco, e antecipas o teu banho demorado e um jantar em boa companhia.

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Mas as emoções não ficariam por ali. No dia seguinte eu lembrei-o que talvez a minha inexperiência não pudesse fazer equipa com os anos que ele tem a andar de mota. Talvez a vontade não fosse suficiente. E ele repondeu que não, não era isso. Faltava-me dar o salto. Só isso. 

Íamos receber os certificados. A organização tinha uns prémios para os três mais regulares a cumprir as 300 e as 500 milhas, e eu pensava naquilo que ele me dissera. Afinal, era fácil, se só tinha de melhorar, só precisava mesmo era de... andar de mota 

Vemos a lista de classificação. Não ficámos em primeiro (o que seria impossível, com o número de vezes que ele voltou para trás), mas não ficámos em último ( o que também era improvável, uma vez que era suposto cumprirmos os limites de velocidade e nisso estava lá eu para ajudar...); aliás ficámos antes do meio da tabela, o que não é nada nada mau. 

Depois, veio a surpresa! "E temos aqui uma lembrancinha para a Dora, que foi a única senhora a terminar o Road Miles!"

A sério?!! Sabem lá o que umas palavrinhas destas fazem ao ego ferido de uma motociclista? Sim, sim, porque se eu estava um pouco desalentada por não conseguir acompanhar o marido nestas voltas de mota, e estas palavrinhas devolveram-me a vontade. Aquela vontade de ir mais longe, fazer melhor, desafiar-me! 

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O prémio foi bom, mas o melhor foi este reconhecimento. Obrigada! Obrigada! Aos organizadores, pelo miminho; aos patrocinadores, que contribuíram com os prémios (e que recheada vinha a mochila da WB-40!!) e... claro! ao rapaz da GSA, que tem uma paciência incomensurável à minha espera, que me serve de guia, e que, quando eu falho (quase nunca, quase nunca!), em vez de me dizer "desiste", me diz "tu és capaz!". 

Voltamos outra vez no próximo!

Boas curvas!

 

 

 

 

 

 

 

A mente de uma motociclista

Apetece-me andar de mota. Apetece-me sempre. Mas hoje apetece-me mais ainda. Está tanto frio. O equipamento é bom. Tenho o relatório para fazer. Só se fosse só um bocadinho. E tenho a avaliação do miúdo para acabar. Ia só beber café. E a roupa para passar. Ainda tenho uma hora antes da miúda chegar. Tenho a certeza que vai chover. Levo o fato. Aquela nuvem está mesmo escura. Vai chover. Vou só beber café. A lareira faz-me olhinhos. Visto o fato. Saio. Ah! Hum! Ainda bem que resolvi dar uma volta. Devia parar no café. Agora já estou preparada e quentinha. Sigo mais um pouco. Vai chover. Agora tenho a certeza. Fiz bem em ter vindo. Os primeiros pingos. Devia voltar para trás. Vou só até à próxima curva. Depois desta. Visto o impermeável. Depois da próxima volto para casa. Adoro andar assim. Sem ninguém pelas estradas. A chuva e o frio lá fora e eu tão quentinha dentro do capacete. Ups! A sério que já passou uma hora? Tenho de voltar... Chove imenso, agora. Quem não anda de mota à chuva, não gosta assim tanto de andar de mota. Eu, por mim, fazia a N2 debaixo de água (outra vez 😉). Sim, há uma grande dose de loucura, digo, paixão nesta coisa de andar de mota

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De volta às motas... a dois!

O homem da casa esteve retirado das motas... foi uma longa quarentena em que a única coisa permitida foi mesmo ouvir música... e eu?! Bem, eu também tive de reduzir as minhas voltinhas... afinal, não consigo levar os dois miúdos lá atrás. Portanto, assim que a médica disse que ele podia retomar a vida normal, ele olhou para mim, eu olhei para ele, e ele perguntou: e andar de mota?? A médica riu-se e descansou-nos: pode sim, mas com uns bons óculos, uma boa viseira e cuidado com o vento!! Era o que queríamos ouvir. Saímos do hospital e seguimos para Fátima, porque a fé é assim mesmo, o coração cheio de esperança, cheio de vontade de partilhar bons momentos, bons sentimentos. E, claro, pelo caminho, paragem em Porto de Mós, porque tínhamo-nos prometido o Castelo desde o passeio da bênção dos capacetes e porque gostamos de ver tudo, ver-ver, de passar e conhecer, de parar para sentir o cheiro, o sabor, a história. E o rapaz aproveita sempre para falar do tempo e eu fico ali a ouvir falar do tempo e qualquer dia também já sei falar do tempo...

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E depois fomos ao Santuário. Só porque sim.

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Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal,

ah! bem sei, que não és o Pai Natal, mas podias ser, se quisesses… E, sim, estou a tratar-te por tu. Não devia, mas é a autista em mim. Lembro-me que somos da mesma idade, que podíamos ter crescido juntos, podíamos ter partilhado a mesma professora primária, no tempo em que as professoras eram primárias, e hoje eu tratava-te por tu, sem que ninguém se importasse que eu te tratasse por tu… além disso, “debaixo da roupa, estamos todos nus”.

Ficas, pois, a saber que não nos conhecemos e antes que deixes esta carta de lado (será que não deixaste já?), escrevo-te porque acredito que gostas de histórias e tenho uma história para contar-te. Vou ser breve, prometo, mas tens de ler. Só mais um pouco.

Querido Pai Natal,

Ah! pois… parece que me atrasei. O Natal já passou, dizem-me os mais atentos, mas o que é que queres? Cheguei a horas de ouvir a minha mãe gritar ao meu pai que ele não a ajuda nada e que o pão se está a queimar no forno, e o galo tem pouco sal, e tem de fazer tudo sozinha, enquanto lhe pergunto como a posso ajudar e ela se contorce numa dança estranha entre a boca do forno e as filhós no fogão da cozinha velha, que é negra e cheira a fritos e a mil sabores, e me diz que não há nada para fazer. Cheguei a tempo de embrulhar, que digo eu?, de enrolar, assim é que é, as últimas prendas que ainda não se sabe muito bem para quem são, enquanto o meu pai abana a cabeça e encolhe os ombros. Cheguei a tempo de oferecer colo e beijos e abraços e brincadeiras, aos miúdos, e um bocadinho de magia, só um bocadinho, porque este ano o Pai Natal se distraiu e se esqueceu de trocar os sapatos e eles juraram que os sapatos eram os do pai e padrinho e lá tivemos de inventar uma história, ainda bem que sou boa a contar histórias, e prometemos aos mais velhos que para o ano seriam duendes ajudantes se desistissem dessa doidice de o Pai Natal ser o pai e o padrinho e, por fim, repusemos a ordem, com alguma imaginação e suborno, e para o ano alguma coisa se há de inventar outra vez que isso é que é o Natal. Portanto, como vês, estive ocupada. Mas o Natal é quando um homem quiser, e uma mulher desejar, por isso…

Querido Pai Natal,

Chamo-me Dora, e entre o dia do meu nascimento e o de hoje (felizmente, ainda não morri, garanto-te) “não há nada mais simples” porque “todos os dias são meus”! E também eu sou fácil de definir: filha, mãe, amiga, inimiga, esposa, amante… Profissão? Professora. Já fui de Português, de Literatura, por paixão; agora, de Educação Especial, por desassossego.

Conduzem-me as paixões. Vou falar-te das menos secretas, porque têm voz em blogues e por isso deixaram de ser minhas e passaram a ser de todos:o croché, no outro lado do crochet, e que não vem ao caso para esta história; a leitura e os demónios da leitora, em os livros e outros demónios, que, não, não te deixes enganar, também não interessa para a história que quero contar e as motas, de batom e capacete. E, se não digo que não, é porque sim. É sobre motas esta história.

Querido Pai Natal, quero uma mota!

Ainda aí estás? Não vás já embora. Este é o momento em que pensas “sim, já me aconteceu de tudo. Houve até um dia em que uma louca me escreveu uma carta a pedir uma mota”, e repara que nem todos poderão dizer o mesmo. Admite, é uma boa história para contar.

Então, deixa-me explicar. Só um bocadinho. Eu vou ser breve. Repara que em dois, três parágrafos, quem os está a contar?, já cheguei ao dia de hoje em que quero uma mota e escrevo ao Pai Natal.

Eu cresci com esta vontade. Andar de mota. Ir pelos caminhos, sentir a estrada a rolar e o vento na cara (sabes a que sabe o vento na cara?).

Deixa-me contar-te. Tirei a carta com 18 anos e foi a primeira vez, talvez a única, em que me independentei do meu pai. Ele não queria. Não ia pagar. E eu, que não sou de ficar sentada no sofá à espera que a vida aconteça, sabes o que fiz? Fiz o que se faz quando se vive entre a Bairrada e a Gândara:  assei leitões em agosto e fui para as vindimas em setembro. Lembro-me de ir para um assador com a minha madrinha, ironicamente numa motoreta minúscula onde mal cabíamos as duas e eu agarrava-me a ela para enganar o frio da madrugada (não tínhamos os fatos quentinhos de hoje e o capacete era miseravelmente aberto) e para não cair de sono, porque o dia de trabalho era imenso. Mas estou a desviar-me. Isso é uma outra história. Tirei a carta. Faltava-me a mota.

20 anos depois comprei a minha mota. Não importa o tempo que demorei. Sou tanto razão, tanto, tanto… E tu imaginas o tempo que a gente leva a juntar dinheiro que não se pode “roubar” àquilo de que mais gostas? Muito tempo.

Há um ano atrás disse ao meu marido: olha, vou comprar uma mota! E ele disse-me: estás maluca… não vais nada, e tal, e és doida… E conhecendo-me como me conhece pensou “É melhor ajudá-la a escolher, porque já sei que ela vai mesmo comprar a mota!”

 Comprei a mota. Um ano depois de muita estrada, algumas aventuras e a mesma paixão, a minha mota parece-me agora muito pouco, sabe-me a pouco. Quero uma mota maior. E, acho que já percebeste, eu não sou de ficar sentada no sofá à espera que a vida aconteça, então (eu prometo que agora vou mesmo ser breve, não desistas), disse ao meu marido: olha, vou escrever um livro! E ele disse-me: Ah! Isso é que é uma boa ideia! Até que enfim uma boa resolução. Apoio-te totalmente” e eu: “…para ganhar dinheiro e comprar uma mota maior.”

E ele não disse nada. Bem, contou-me uma anedota sobre um maluco no manicómio e soutiens… Não interessa. Adiante!

Eu não sei fazer muitas coisas. Isso era o que eu devia escrever, sei-o bem, para que tivesses pena de mim, ou para que me passasses a mão pela cabeça “não, não, não é bem assim”, dirias gentil, para ser simpático, mas, raios!, eu não sei dessas conversas de circunstâncias (já te disse que não sei falar do tempo? Não sei!), por isso, eu sei fazer muitas coisas: assar leitões (quantas professoras conheces que sabem assar leitões?), vindimar, apanhar batatas, fazer crochet, andar de mota, e muitas outras coisas que não cabem nesta história abreviada. Também gosto de pensar que sei escrever Um pouco. Não muito. O suficiente. Sou certa e irremediavelmente melhor leitora do que alguma vez serei escritora.

 Mas, ainda assim, escrevo, como muita gente. E gosto de histórias. Sou uma apaixonada por surpreendentes histórias de desamor que estão sempre a suceder e a provocar-me para que eu as escreva. É o outro lado das histórias de amor. Desconcertantes e verdadeiras que nem sempre têm finais felizes, mas que podem ter recomeços felizes. Não adoras recomeços? É o meu O Outro Lado. Não escrevi este livro ontem. Não! Não! Há anos que o escrevo. O Outro Lado é sobre estar sozinho, sobre estar longe e, no longe, ter um vida tão outra!

Continuas aí? Estou a terminar, prometo ser breve. Mando o livro a editoras e dizem-me, que talvez daqui a três anos, quem sabe dois anos, possam ler o original e dar-me uma resposta. Sorrio-lhes. Sorrio-lhes sempre. Eles não sabem nem sonham que não me vão fazer desistir…

Quem sabe vai perguntando "E não conheces ninguém? Alguém no mundo das editoras? Algum escritor? Alguém que fizesse o tempo correr depressa?"

Não, não conheço. E, se conhecesse, seria como se não conhecesse. É a autista em mim… Pedir alguma coisa a alguém, só se for ao Pai Natal...

 

Querido Pai Natal, quero uma mota!

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Boas curvas!

Vou ali e venho já

A ideia era apenas tirá-la da garagem, ir à farmácia da vila e, no limite, passar pela escola, entregar papéis, parar na Câmara, pagar umas faturas... Enfim,  meia dúzia de quilómetros e estava feito. Daqui a nada o meu "paciente" precisa de mim como enfermeira.

O problema é que a minha Branquinha é endiabrada e tem vontade própria e, assim que se apanha na estrada, começa a torturar-me. Mais um bocadinho, só mais um bocadinho, só mais um bocadinho...

E, depois, tu paras para lhe mostar que tu é que mandas e já foi bom teres vindo até ali, já fizeste uma dúzia de quilómetros e paras só para uma foto, e é segunda feira e percebes que aquele é provavelmente um dos melhores momentos dos últimos dias. 

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E sobes para cima dela e deixas que ela te leve. 

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Só tens de estar em casa à hora de almoço para o teu novo papel de "enfermeira". E estás! Que importa se fizeste cem quilómetros para voltar a casa?

 

Boas curvas!

 

Por entre os pingos da chuva

"Agora com a chuva, essa coisa de andar de mota já está mais calma, não?!" - perguntam-me os colegas na escola, a apontar para o céu escuro, com um sorriso crítico.

É... - respondo, sem olhar.

Estou azeda. Não vou por aí. Logo pela manhã, o marido tinha avisado:"Vai chover. Esquece os dias para andar de mota. Acabaram. Podes encostar a mota durante uns tempos." Gritei-lhe um "Não me deixes de mau-humor!!", mas não pude fingir que nao via o céu carregado, a anunciar tempestades. E, agora, aquilo.

Saio da escola. Já resolvi. Vou esticar a noite pela madrugada a fazer planificações, mas enquanto a chuva não chega, sou completamente livre! Livre para ir.

E, de repente lembro-me que estou muito errada quando, no desespero, digo que seria preferível que os professores trabalhassem das nove às sete com uma hora de almoço. Sim, estou tão errada, porque, ainda que as horas de trabalho fossem certamente menos, não poderia sair da escola à hora de almoço para ser assim tão completamente livre durante umas horitas.

Corro até casa para ir buscar a minha mota. Recebo uma mensagem: "Almoçamos juntos?". Sorrio e resolvo provocá-lo. Ainda estou zangada pela "ameaça" da manhã: "Não. Já combinei almoçar com os colegas..."

Espero um segundo. O tempo de um levantar de sobrancelha, de um espanto nos olhos.

"É mentira. Vou almoçar à praia... de mota! Demoras?" Sorrio, ao pensar no sorriso dele. Melhor do que um motociclista, só dois motociclistas...

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Em minutos estamos na estrada. A ameaça negra das nuvens paira sobre nós, constante, e por cada quilómetro, há um sorriso que cresce.

Vamos ao Baleal. Adoro esta praia. Porque é naturalmente linda e porque as suas pessoas também são lindas. Quando nos aproximamos, sentimos no ar uma energia positiva de gente feliz. É outono e na berma da estrada, vemos gente que corre, gente que passeia, gente que anda de bicicleta com os filhos; no areal há surfistas de mil cores por dentro, de fatos pretos por fora.

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É novembro, no oeste, e quando vejo uma rapariga de biquini a correr para o mar, percebo aquela linha invisível que nos une, uma dose de loucura que nos leva até ali.

O almoço faz-se à beira-mar. Omelete do mar e feijoada de chocos, num restaurante que já nos tínhamos prometido há algum tempo. As pessoas são simpáticas, cordiais, e não falam do tempo. Eu adorei, ele, já se sabe, faz-lhe falta falar um pouco do tempo...

Aproveitamos para contornar a "ilha". Em todos os sítios estamos bem. Paramos juntos. Sozinhos. Tiramos fotografias. Um ao outro, os dois. 

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Comento "É por isto que eu gosto de andar de mota, por esta possibilidade de deixar tudo para trás e ir para onde quiser, ser dona de mim."

Ele diz-me "Eu gosto de andar de mota porque gosto, não sei porquê. Gosto. Apenas."

Eu sorrio. Desta vez, ele ganhou-me nas palavras.

 

Boas curvas!

 

 

Moinhos de vento

 

Mesmo quando ando de mota sozinha, não ando de mota sozinha. Mas, ainda assim, prefiro o não andar sozinha com o outro mesmo ao lado. Parecemos dois amantes. Dos amantes amantes. Dos amantes dos encontros às escondidas, dos amantes dos almoços combinados à última hora, dos amantes que roubam sempre tempo aos dias sem tempo, dos amantes das viagens juntos, dos amantes das paixões em comum. 

O encontro foi no Bar da Serra, para um café. Desculpas de quem quer rodar estrada fora, fazer curvas. Sabíamos que o café estaria fechado. Estava. Mas é o lugar perfeito para beijos apaixonados, longe de olhares indiscretos. Há nesta serra uma vegetação de bosque encantado de conto de fadas. E também há castanhas, e, quando chego, ele apanha algumas para os miúdos.

 

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Hoje sugiro eu o trajeto. Descer pelo outro lado da montanha e encher os olhos desta vista.

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Claro que, como eu previra, ele não resiste aos caminhos que conduzem aos moinhos e eu sou obrigada a segui-lo. Ocorre-me, por instantes, Dom Quixote a combater os gigantes, mas eu seria, então, Sancho Pança, e, infelizmente, ou não, sinto-me com a mesma loucura do Dom Quixote que segue montado na BMW à minha frente, por isso, não sou Sancho Pança. Somos outras personagens.

Somos Baltasar e Blimunda, atrás da passarola perdida nesta serra... eu estou a aprender a recolher vontades...

 Lamento não ter a GS, mas vou incentivando mentalmente a Branquinha, para que ela não caia quando passamos pela brita solta dos caminhos. Temos uma combinação secreta que eu me esforço por cumprir, eu não a deixo cair e ela não me atira ao chão.20161028_152027.jpg

Chegamos enfim ao último moinho. Paramos e apreciamos a paisagem. Sinto-me viva.

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Um senhor ronda o moinho. Vem ver-nos, e o marido não resiste a cumprimentá-lo. Conversam. Das aldeias ao redor, dos moinhos, do tempo... Eu não sei falar do tempo, mas peço para tirar uma fotografia ao moinho. E o senhor, reconhecido, há de confessar-nos mais tarde que também há uns dias atrás passou por lá uma outra pessoa de mota que o ignorou completamente e até tirou fotografias, sem pedir autorização, que, via-se logo, nós éramos diferentes, grato pela atenção perguntou-nos se queríamos ver o moinho.

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Olhamos para o relógio. Somos amantes de tempo contado. Mas eu digo "Nunca vi um moinho de vento por dentro" e o marido quer deixar-me feliz "fazemos uma visita rápida".

O "moleiro" faz-nos uma visita guiada maravilhosa. A recuperação do moinho, reconstruído pelo pai em 1954, e, depois, em 1986, de novo a funcionar pela sua mão.

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Mostra-nos as mós: duas de trigo, uma para o milho: Fala-nos do funcionamento. Explica tudo com uma paixão entusiástica. As cordas para segurar as mós, as picadeiras, para picar as mós, quando ficam gastas de moer tanto milho, o símbolo dos moleiro, não é uma questão de religião, explica, é só para saber onde a mó deve encaixar, é um símbolo...O moinho é antigo, vê-se gravada uma data, 1889 e ele afirma que sempre ali a viu. 

 

O moinho é encantador. Ele lamenta que o pai não possa ver o moinho, agora, recuperado. Eu garanto-lhe que, pelo menos eu, gosto imenso!

Olhamos para o relógio. Talvez pudessemos ficar ali a tarde toda, mas somos mesmo amantes de tempo contado. Não nos podemos atrasar. Os amantes nunca se atrasam para as suas famílias.

Damos ainda uma espreitadela final à casinha de apoio ao lado do moinho. É uma casinha de exposição, onde não há um único pormenor deixado ao acaso. Há fotografias, e reconhecemos o filho do senhor. Estamos perto de casa, afinal. 

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Ainda assim, pela novidade, pelo encanto, parece-nos, por instantes, que viajámos para longe.

De mota os caminhos de casa transformam-se e ganham sabor de destino longínquo. De mota, um dia ainda aprendo a falar sobre o tempo. Tenho o melhor professor!

Boas curvas!

Por falar em motas # 3

Marido: África é realmente fascinante, enfeitiçante, mágica, mas sabes o que é mais surpreendente? É que, enquanto eu andava por lá, só pensava como seria maravilhoso andar por ali na minha mota... Eu: Sabes o que é verdadeiramente surpreendente? É que eu nunca andei por lá e só penso como deve ser maravilhoso andar por lá na minha mota!!

Quantos anos tens?

Este mês faço anos. Gosto de fazer anos. Talvez ainda esteja em idade de gostar de fazer anos. Não sei. Não ligo muito a essa coisa da idade. Ouvi há dias que a idade que tens não tem importância nenhuma, a não ser que sejas um vinho... Eu também acho. Não sou um vinho... Aliás, se viver tantos, e tão bons, anos como a minha bisavó, ainda não estou a meio da minha vida, e isso só pode deixar-me feliz!

Gosto de pensar que esta é a idade certa para fazer o que estou a fazer.

Às vezes, muitas vezes, conto esta história engraçada de não desistir dos sonhos, de comprar mota depois dos quarenta, de me apaixonar pelo mundo das motas depois dos quarenta e as pessoas parecem sempre surpeender-se. Perguntam-me quantos anos tenho como se houvesse uma idade limite para se realizarem os sonhos, ou para se andar de mota com o mesmo prazer de um andolescente rebelde que "rouba" a mota ao pai para percorrer trilhos num pinhal (sim, eu nunca "roubei" a mota ao meu pai em adolescente, mas acredito que o prazer que sinto a andar de mota deve ser o mesmo...). E  tenho esta teoria meio louca, meio séria, de que em relação aos anos que tens, tal como em relação aos quilómetros que tens em cima de uma mota, a pergunta certa não é "quantos já fizeste?", mas "quantos vais fazer?". Mas rio-me perante o espanto, e respondo-lhes que tenho a idade certa para fazer o que me deixa feliz.

E, se, por um acaso (e tudo na minha vida é sempre por uma acaso repleto de vontade, e paixão, e um pouco mais de vontade), e se, por esse acaso que eu construí, no mês em que fazes quarenta e dois anos, menos de um ano depois de teres a tua mota, já rodaste estrada suficiente para saberes que os teus melhores amigos estavam errados quando te disseram que esta loucura das motas não sobreviveria aos meses de inverno,  e afinal esta loucura das motas cresceu e eu quero cada vez mais rodar cada vez mais estrada, e, ainda por esse acaso, que eu teço com fios de vontade e paixão, escreves, no mês em que fazes quarenta e dois anos, um artigo dedicado a este tema forte de "Girl Power", para uma revista como a Motociclismo, acreditas mesmo que este é bem capaz de ser o caminho certo!

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Boas curvas|