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De capacete e batom

De capacete e batom

Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal,

ah! bem sei, que não és o Pai Natal, mas podias ser, se quisesses… E, sim, estou a tratar-te por tu. Não devia, mas é a autista em mim. Lembro-me que somos da mesma idade, que podíamos ter crescido juntos, podíamos ter partilhado a mesma professora primária, no tempo em que as professoras eram primárias, e hoje eu tratava-te por tu, sem que ninguém se importasse que eu te tratasse por tu… além disso, “debaixo da roupa, estamos todos nus”.

Ficas, pois, a saber que não nos conhecemos e antes que deixes esta carta de lado (será que não deixaste já?), escrevo-te porque acredito que gostas de histórias e tenho uma história para contar-te. Vou ser breve, prometo, mas tens de ler. Só mais um pouco.

Querido Pai Natal,

Ah! pois… parece que me atrasei. O Natal já passou, dizem-me os mais atentos, mas o que é que queres? Cheguei a horas de ouvir a minha mãe gritar ao meu pai que ele não a ajuda nada e que o pão se está a queimar no forno, e o galo tem pouco sal, e tem de fazer tudo sozinha, enquanto lhe pergunto como a posso ajudar e ela se contorce numa dança estranha entre a boca do forno e as filhós no fogão da cozinha velha, que é negra e cheira a fritos e a mil sabores, e me diz que não há nada para fazer. Cheguei a tempo de embrulhar, que digo eu?, de enrolar, assim é que é, as últimas prendas que ainda não se sabe muito bem para quem são, enquanto o meu pai abana a cabeça e encolhe os ombros. Cheguei a tempo de oferecer colo e beijos e abraços e brincadeiras, aos miúdos, e um bocadinho de magia, só um bocadinho, porque este ano o Pai Natal se distraiu e se esqueceu de trocar os sapatos e eles juraram que os sapatos eram os do pai e padrinho e lá tivemos de inventar uma história, ainda bem que sou boa a contar histórias, e prometemos aos mais velhos que para o ano seriam duendes ajudantes se desistissem dessa doidice de o Pai Natal ser o pai e o padrinho e, por fim, repusemos a ordem, com alguma imaginação e suborno, e para o ano alguma coisa se há de inventar outra vez que isso é que é o Natal. Portanto, como vês, estive ocupada. Mas o Natal é quando um homem quiser, e uma mulher desejar, por isso…

Querido Pai Natal,

Chamo-me Dora, e entre o dia do meu nascimento e o de hoje (felizmente, ainda não morri, garanto-te) “não há nada mais simples” porque “todos os dias são meus”! E também eu sou fácil de definir: filha, mãe, amiga, inimiga, esposa, amante… Profissão? Professora. Já fui de Português, de Literatura, por paixão; agora, de Educação Especial, por desassossego.

Conduzem-me as paixões. Vou falar-te das menos secretas, porque têm voz em blogues e por isso deixaram de ser minhas e passaram a ser de todos:o croché, no outro lado do crochet, e que não vem ao caso para esta história; a leitura e os demónios da leitora, em os livros e outros demónios, que, não, não te deixes enganar, também não interessa para a história que quero contar e as motas, de batom e capacete. E, se não digo que não, é porque sim. É sobre motas esta história.

Querido Pai Natal, quero uma mota!

Ainda aí estás? Não vás já embora. Este é o momento em que pensas “sim, já me aconteceu de tudo. Houve até um dia em que uma louca me escreveu uma carta a pedir uma mota”, e repara que nem todos poderão dizer o mesmo. Admite, é uma boa história para contar.

Então, deixa-me explicar. Só um bocadinho. Eu vou ser breve. Repara que em dois, três parágrafos, quem os está a contar?, já cheguei ao dia de hoje em que quero uma mota e escrevo ao Pai Natal.

Eu cresci com esta vontade. Andar de mota. Ir pelos caminhos, sentir a estrada a rolar e o vento na cara (sabes a que sabe o vento na cara?).

Deixa-me contar-te. Tirei a carta com 18 anos e foi a primeira vez, talvez a única, em que me independentei do meu pai. Ele não queria. Não ia pagar. E eu, que não sou de ficar sentada no sofá à espera que a vida aconteça, sabes o que fiz? Fiz o que se faz quando se vive entre a Bairrada e a Gândara:  assei leitões em agosto e fui para as vindimas em setembro. Lembro-me de ir para um assador com a minha madrinha, ironicamente numa motoreta minúscula onde mal cabíamos as duas e eu agarrava-me a ela para enganar o frio da madrugada (não tínhamos os fatos quentinhos de hoje e o capacete era miseravelmente aberto) e para não cair de sono, porque o dia de trabalho era imenso. Mas estou a desviar-me. Isso é uma outra história. Tirei a carta. Faltava-me a mota.

20 anos depois comprei a minha mota. Não importa o tempo que demorei. Sou tanto razão, tanto, tanto… E tu imaginas o tempo que a gente leva a juntar dinheiro que não se pode “roubar” àquilo de que mais gostas? Muito tempo.

Há um ano atrás disse ao meu marido: olha, vou comprar uma mota! E ele disse-me: estás maluca… não vais nada, e tal, e és doida… E conhecendo-me como me conhece pensou “É melhor ajudá-la a escolher, porque já sei que ela vai mesmo comprar a mota!”

 Comprei a mota. Um ano depois de muita estrada, algumas aventuras e a mesma paixão, a minha mota parece-me agora muito pouco, sabe-me a pouco. Quero uma mota maior. E, acho que já percebeste, eu não sou de ficar sentada no sofá à espera que a vida aconteça, então (eu prometo que agora vou mesmo ser breve, não desistas), disse ao meu marido: olha, vou escrever um livro! E ele disse-me: Ah! Isso é que é uma boa ideia! Até que enfim uma boa resolução. Apoio-te totalmente” e eu: “…para ganhar dinheiro e comprar uma mota maior.”

E ele não disse nada. Bem, contou-me uma anedota sobre um maluco no manicómio e soutiens… Não interessa. Adiante!

Eu não sei fazer muitas coisas. Isso era o que eu devia escrever, sei-o bem, para que tivesses pena de mim, ou para que me passasses a mão pela cabeça “não, não, não é bem assim”, dirias gentil, para ser simpático, mas, raios!, eu não sei dessas conversas de circunstâncias (já te disse que não sei falar do tempo? Não sei!), por isso, eu sei fazer muitas coisas: assar leitões (quantas professoras conheces que sabem assar leitões?), vindimar, apanhar batatas, fazer crochet, andar de mota, e muitas outras coisas que não cabem nesta história abreviada. Também gosto de pensar que sei escrever Um pouco. Não muito. O suficiente. Sou certa e irremediavelmente melhor leitora do que alguma vez serei escritora.

 Mas, ainda assim, escrevo, como muita gente. E gosto de histórias. Sou uma apaixonada por surpreendentes histórias de desamor que estão sempre a suceder e a provocar-me para que eu as escreva. É o outro lado das histórias de amor. Desconcertantes e verdadeiras que nem sempre têm finais felizes, mas que podem ter recomeços felizes. Não adoras recomeços? É o meu O Outro Lado. Não escrevi este livro ontem. Não! Não! Há anos que o escrevo. O Outro Lado é sobre estar sozinho, sobre estar longe e, no longe, ter um vida tão outra!

Continuas aí? Estou a terminar, prometo ser breve. Mando o livro a editoras e dizem-me, que talvez daqui a três anos, quem sabe dois anos, possam ler o original e dar-me uma resposta. Sorrio-lhes. Sorrio-lhes sempre. Eles não sabem nem sonham que não me vão fazer desistir…

Quem sabe vai perguntando "E não conheces ninguém? Alguém no mundo das editoras? Algum escritor? Alguém que fizesse o tempo correr depressa?"

Não, não conheço. E, se conhecesse, seria como se não conhecesse. É a autista em mim… Pedir alguma coisa a alguém, só se for ao Pai Natal...

 

Querido Pai Natal, quero uma mota!

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Boas curvas!

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