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De capacete e batom

De capacete e batom

19
Jan16

Os caminhos incompletos - parte 1

Dora Sofia

Andar de mota é sempre uma surpresa boa. Aprendes a aceitar o que te revela cada curva como uma aventura, com o olhar surpreendido de quem vê tudo pela primeira vez. O planeado não é o planeado, e o caminho pode nunca ser o que traçaste. O caminho oferece-te as possibilidades de uma vida: viras à esquerda mesmo quando planearas virar à direita, voltas atrás, paras, recomeças, traças um novo caminho…são os caminhos que fazem da tua vida uma viagem.

Desta vez o caminho far-se-ia pela costa, de Nazaré a Peniche, para enchermos os olhos de mar.

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 Na Nazaré, procurávamos um restaurante, enquanto apreciávamos o mar calmo lá em baixo, a antecipar desejos de verão.

A vontade pedia-nos peixe, mas o dia era cruel. Segunda-feira de chuva não é dia de passeios de mota, não é dia de restaurantes abertos, não é dia de peixe fresco. Porém, há muito que descobrimos que os dias certos são só os dias que escolhemos para nós e que bebemos até à última gota.

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Estacionamos para espreitar o mar e um cantinho de restaurante encontra-nos, por acaso, e acena-nos com um menu repleto de peixe. Não hesitamos. Tem tudo o que queremos: as motas debaixo dos nossos olhos, paradas na esplanada e, pelo menos, oito pratos diferentes de peixe.

Lá dentro há meia dúzia de mesas cobertas por toalhas improvisadas, há gente que parece estar em casa, e temo ver chegar alguém em pijama, ouve-se música pimba da rádio local e os pratos de peixe são, afinal, um robalo. Único. Fresquinho! – garantem-nos – pescado por aquele rapaz ali. E o rapaz acena a confirmar que sim.

Não há cerimónias. Nem legumes. Há batatas e um robalo grelhado. Os donos da “casa” sentam-se na mesa ao lado a almoçar, enquanto comentam as notícias. Houve cheias em Coimbra. Não percebem… se o mosteiro é na parte alta. O meu marido agarra o isco (agarra-os sempre) e explica. Aquele é o mosteiro velho, não o novo.

E pronto. A licença para a conversa fica concedida. Perguntam-nos de onde somos e, nós, como sempre, atrapalhamo-nos, somos daqui e dali, um pouco de todo o lado, um pouco de lado nenhum. Mas é o suficiente para entabular conversa. Não eu! Já disse que não sei falar do tempo, mas ele ocupa-se dessas artes sociais como ninguém.

Ficamos a saber que a Nazaré já não é a Nazaré das sete saias, mas é, agora, a Nazaré do McNamara. Vêm para aí- dizem – e perguntam-nos aonde é a onda. Vejam só, aonde é a onda! Ondas sempre houve. Há anos que vejo ondas nesta terra e eles agora vêm para aí à procura da onda. Tudo muito bem. Está tudo muito bem. Não se importam com as enchentes de turistas, olheiros, surfistas e staff de apoio, nos dias em que põem lá no facebook que é dia de ondas, mas gostariam de saber quem há de pagar o Centro de Alto Rendimento de Surf. Não quem o pagou, mas quem é que ainda o há de pagar.

Além disso, confessa-nos em surdina, não acredita no tamanho da onda. 50 metros? Não pode ser, caramba! Isso entrava pela terra adentro. A mulher insurge-se, então. Não lhe liguem, ele só fala assim porque não é de cá… E ele: mas vivo cá há 30 anos e já tomei muitas vezes banho naquelas águas… Mas não é a mesma coisa, remata ela, enquanto se levanta a fechar a conversa. Se fosses, não dizias isso… Ele encolhe os ombros e lança um olhar de cumplicidade ao meu marido ao que este responde com um sorriso compreensivo. Parou de chover, digo eu, mas sou ignorada por todos, para que não possa esquecer que não sei falar do tempo.

Oferece-nos uma ginjinha de Alcobaça. Ainda estou a tentar recusar, quando percebo que não era uma pergunta. Já temos a garrafa na mesa. É por conta da casa! - lembra -  como se, por isso, não fosse possível recusar.

E ainda bem! A ginja era ótima, as pessoas deliciosas e poderíamos ter ficado ali a tarde toda a ouvir as histórias daquelas gentes, mas tínhamo-nos prometido outras ondas. Depois do Farolim da Nazaré, seguimos para S. Martinho do Porto, para percebermos que, afinal,  uma das coisas boas de andar de mota é quebrar promessas…

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 Boas Curvas!

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