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De capacete e batom

De capacete e batom

26
Dez16

Carta ao Pai Natal

Dora Sofia

Querido Pai Natal,

ah! bem sei, que não és o Pai Natal, mas podias ser, se quisesses… E, sim, estou a tratar-te por tu. Não devia, mas é a autista em mim. Lembro-me que somos da mesma idade, que podíamos ter crescido juntos, podíamos ter partilhado a mesma professora primária, no tempo em que as professoras eram primárias, e hoje eu tratava-te por tu, sem que ninguém se importasse que eu te tratasse por tu… além disso, “debaixo da roupa, estamos todos nus”.

Ficas, pois, a saber que não nos conhecemos e antes que deixes esta carta de lado (será que não deixaste já?), escrevo-te porque acredito que gostas de histórias e tenho uma história para contar-te. Vou ser breve, prometo, mas tens de ler. Só mais um pouco.

Querido Pai Natal,

Ah! pois… parece que me atrasei. O Natal já passou, dizem-me os mais atentos, mas o que é que queres? Cheguei a horas de ouvir a minha mãe gritar ao meu pai que ele não a ajuda nada e que o pão se está a queimar no forno, e o galo tem pouco sal, e tem de fazer tudo sozinha, enquanto lhe pergunto como a posso ajudar e ela se contorce numa dança estranha entre a boca do forno e as filhós no fogão da cozinha velha, que é negra e cheira a fritos e a mil sabores, e me diz que não há nada para fazer. Cheguei a tempo de embrulhar, que digo eu?, de enrolar, assim é que é, as últimas prendas que ainda não se sabe muito bem para quem são, enquanto o meu pai abana a cabeça e encolhe os ombros. Cheguei a tempo de oferecer colo e beijos e abraços e brincadeiras, aos miúdos, e um bocadinho de magia, só um bocadinho, porque este ano o Pai Natal se distraiu e se esqueceu de trocar os sapatos e eles juraram que os sapatos eram os do pai e padrinho e lá tivemos de inventar uma história, ainda bem que sou boa a contar histórias, e prometemos aos mais velhos que para o ano seriam duendes ajudantes se desistissem dessa doidice de o Pai Natal ser o pai e o padrinho e, por fim, repusemos a ordem, com alguma imaginação e suborno, e para o ano alguma coisa se há de inventar outra vez que isso é que é o Natal. Portanto, como vês, estive ocupada. Mas o Natal é quando um homem quiser, e uma mulher desejar, por isso…

Querido Pai Natal,

Chamo-me Dora, e entre o dia do meu nascimento e o de hoje (felizmente, ainda não morri, garanto-te) “não há nada mais simples” porque “todos os dias são meus”! E também eu sou fácil de definir: filha, mãe, amiga, inimiga, esposa, amante… Profissão? Professora. Já fui de Português, de Literatura, por paixão; agora, de Educação Especial, por desassossego.

Conduzem-me as paixões. Vou falar-te das menos secretas, porque têm voz em blogues e por isso deixaram de ser minhas e passaram a ser de todos:o croché, no outro lado do crochet, e que não vem ao caso para esta história; a leitura e os demónios da leitora, em os livros e outros demónios, que, não, não te deixes enganar, também não interessa para a história que quero contar e as motas, de batom e capacete. E, se não digo que não, é porque sim. É sobre motas esta história.

Querido Pai Natal, quero uma mota!

Ainda aí estás? Não vás já embora. Este é o momento em que pensas “sim, já me aconteceu de tudo. Houve até um dia em que uma louca me escreveu uma carta a pedir uma mota”, e repara que nem todos poderão dizer o mesmo. Admite, é uma boa história para contar.

Então, deixa-me explicar. Só um bocadinho. Eu vou ser breve. Repara que em dois, três parágrafos, quem os está a contar?, já cheguei ao dia de hoje em que quero uma mota e escrevo ao Pai Natal.

Eu cresci com esta vontade. Andar de mota. Ir pelos caminhos, sentir a estrada a rolar e o vento na cara (sabes a que sabe o vento na cara?).

Deixa-me contar-te. Tirei a carta com 18 anos e foi a primeira vez, talvez a única, em que me independentei do meu pai. Ele não queria. Não ia pagar. E eu, que não sou de ficar sentada no sofá à espera que a vida aconteça, sabes o que fiz? Fiz o que se faz quando se vive entre a Bairrada e a Gândara:  assei leitões em agosto e fui para as vindimas em setembro. Lembro-me de ir para um assador com a minha madrinha, ironicamente numa motoreta minúscula onde mal cabíamos as duas e eu agarrava-me a ela para enganar o frio da madrugada (não tínhamos os fatos quentinhos de hoje e o capacete era miseravelmente aberto) e para não cair de sono, porque o dia de trabalho era imenso. Mas estou a desviar-me. Isso é uma outra história. Tirei a carta. Faltava-me a mota.

20 anos depois comprei a minha mota. Não importa o tempo que demorei. Sou tanto razão, tanto, tanto… E tu imaginas o tempo que a gente leva a juntar dinheiro que não se pode “roubar” àquilo de que mais gostas? Muito tempo.

Há um ano atrás disse ao meu marido: olha, vou comprar uma mota! E ele disse-me: estás maluca… não vais nada, e tal, e és doida… E conhecendo-me como me conhece pensou “É melhor ajudá-la a escolher, porque já sei que ela vai mesmo comprar a mota!”

 Comprei a mota. Um ano depois de muita estrada, algumas aventuras e a mesma paixão, a minha mota parece-me agora muito pouco, sabe-me a pouco. Quero uma mota maior. E, acho que já percebeste, eu não sou de ficar sentada no sofá à espera que a vida aconteça, então (eu prometo que agora vou mesmo ser breve, não desistas), disse ao meu marido: olha, vou escrever um livro! E ele disse-me: Ah! Isso é que é uma boa ideia! Até que enfim uma boa resolução. Apoio-te totalmente” e eu: “…para ganhar dinheiro e comprar uma mota maior.”

E ele não disse nada. Bem, contou-me uma anedota sobre um maluco no manicómio e soutiens… Não interessa. Adiante!

Eu não sei fazer muitas coisas. Isso era o que eu devia escrever, sei-o bem, para que tivesses pena de mim, ou para que me passasses a mão pela cabeça “não, não, não é bem assim”, dirias gentil, para ser simpático, mas, raios!, eu não sei dessas conversas de circunstâncias (já te disse que não sei falar do tempo? Não sei!), por isso, eu sei fazer muitas coisas: assar leitões (quantas professoras conheces que sabem assar leitões?), vindimar, apanhar batatas, fazer crochet, andar de mota, e muitas outras coisas que não cabem nesta história abreviada. Também gosto de pensar que sei escrever Um pouco. Não muito. O suficiente. Sou certa e irremediavelmente melhor leitora do que alguma vez serei escritora.

 Mas, ainda assim, escrevo, como muita gente. E gosto de histórias. Sou uma apaixonada por surpreendentes histórias de desamor que estão sempre a suceder e a provocar-me para que eu as escreva. É o outro lado das histórias de amor. Desconcertantes e verdadeiras que nem sempre têm finais felizes, mas que podem ter recomeços felizes. Não adoras recomeços? É o meu O Outro Lado. Não escrevi este livro ontem. Não! Não! Há anos que o escrevo. O Outro Lado é sobre estar sozinho, sobre estar longe e, no longe, ter um vida tão outra!

Continuas aí? Estou a terminar, prometo ser breve. Mando o livro a editoras e dizem-me, que talvez daqui a três anos, quem sabe dois anos, possam ler o original e dar-me uma resposta. Sorrio-lhes. Sorrio-lhes sempre. Eles não sabem nem sonham que não me vão fazer desistir…

Quem sabe vai perguntando "E não conheces ninguém? Alguém no mundo das editoras? Algum escritor? Alguém que fizesse o tempo correr depressa?"

Não, não conheço. E, se conhecesse, seria como se não conhecesse. É a autista em mim… Pedir alguma coisa a alguém, só se for ao Pai Natal...

 

Querido Pai Natal, quero uma mota!

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Boas curvas!

05
Dez16

Vou ali e venho já

Dora Sofia

A ideia era apenas tirá-la da garagem, ir à farmácia da vila e, no limite, passar pela escola, entregar papéis, parar na Câmara, pagar umas faturas... Enfim,  meia dúzia de quilómetros e estava feito. Daqui a nada o meu "paciente" precisa de mim como enfermeira.

O problema é que a minha Branquinha é endiabrada e tem vontade própria e, assim que se apanha na estrada, começa a torturar-me. Mais um bocadinho, só mais um bocadinho, só mais um bocadinho...

E, depois, tu paras para lhe mostar que tu é que mandas e já foi bom teres vindo até ali, já fizeste uma dúzia de quilómetros e paras só para uma foto, e é segunda feira e percebes que aquele é provavelmente um dos melhores momentos dos últimos dias. 

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E sobes para cima dela e deixas que ela te leve. 

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Só tens de estar em casa à hora de almoço para o teu novo papel de "enfermeira". E estás! Que importa se fizeste cem quilómetros para voltar a casa?

 

Boas curvas!

 

09
Nov16

Por entre os pingos da chuva

Dora Sofia

"Agora com a chuva, essa coisa de andar de mota já está mais calma, não?!" - perguntam-me os colegas na escola, a apontar para o céu escuro, com um sorriso crítico.

É... - respondo, sem olhar.

Estou azeda. Não vou por aí. Logo pela manhã, o marido tinha avisado:"Vai chover. Esquece os dias para andar de mota. Acabaram. Podes encostar a mota durante uns tempos." Gritei-lhe um "Não me deixes de mau-humor!!", mas não pude fingir que nao via o céu carregado, a anunciar tempestades. E, agora, aquilo.

Saio da escola. Já resolvi. Vou esticar a noite pela madrugada a fazer planificações, mas enquanto a chuva não chega, sou completamente livre! Livre para ir.

E, de repente lembro-me que estou muito errada quando, no desespero, digo que seria preferível que os professores trabalhassem das nove às sete com uma hora de almoço. Sim, estou tão errada, porque, ainda que as horas de trabalho fossem certamente menos, não poderia sair da escola à hora de almoço para ser assim tão completamente livre durante umas horitas.

Corro até casa para ir buscar a minha mota. Recebo uma mensagem: "Almoçamos juntos?". Sorrio e resolvo provocá-lo. Ainda estou zangada pela "ameaça" da manhã: "Não. Já combinei almoçar com os colegas..."

Espero um segundo. O tempo de um levantar de sobrancelha, de um espanto nos olhos.

"É mentira. Vou almoçar à praia... de mota! Demoras?" Sorrio, ao pensar no sorriso dele. Melhor do que um motociclista, só dois motociclistas...

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Em minutos estamos na estrada. A ameaça negra das nuvens paira sobre nós, constante, e por cada quilómetro, há um sorriso que cresce.

Vamos ao Baleal. Adoro esta praia. Porque é naturalmente linda e porque as suas pessoas também são lindas. Quando nos aproximamos, sentimos no ar uma energia positiva de gente feliz. É outono e na berma da estrada, vemos gente que corre, gente que passeia, gente que anda de bicicleta com os filhos; no areal há surfistas de mil cores por dentro, de fatos pretos por fora.

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É novembro, no oeste, e quando vejo uma rapariga de biquini a correr para o mar, percebo aquela linha invisível que nos une, uma dose de loucura que nos leva até ali.

O almoço faz-se à beira-mar. Omelete do mar e feijoada de chocos, num restaurante que já nos tínhamos prometido há algum tempo. As pessoas são simpáticas, cordiais, e não falam do tempo. Eu adorei, ele, já se sabe, faz-lhe falta falar um pouco do tempo...

Aproveitamos para contornar a "ilha". Em todos os sítios estamos bem. Paramos juntos. Sozinhos. Tiramos fotografias. Um ao outro, os dois. 

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Comento "É por isto que eu gosto de andar de mota, por esta possibilidade de deixar tudo para trás e ir para onde quiser, ser dona de mim."

Ele diz-me "Eu gosto de andar de mota porque gosto, não sei porquê. Gosto. Apenas."

Eu sorrio. Desta vez, ele ganhou-me nas palavras.

 

Boas curvas!

 

 

29
Out16

Moinhos de vento

Dora Sofia

 

Mesmo quando ando de mota sozinha, não ando de mota sozinha. Mas, ainda assim, prefiro o não andar sozinha com o outro mesmo ao lado. Parecemos dois amantes. Dos amantes amantes. Dos amantes dos encontros às escondidas, dos amantes dos almoços combinados à última hora, dos amantes que roubam sempre tempo aos dias sem tempo, dos amantes das viagens juntos, dos amantes das paixões em comum. 

O encontro foi no Bar da Serra, para um café. Desculpas de quem quer rodar estrada fora, fazer curvas. Sabíamos que o café estaria fechado. Estava. Mas é o lugar perfeito para beijos apaixonados, longe de olhares indiscretos. Há nesta serra uma vegetação de bosque encantado de conto de fadas. E também há castanhas, e, quando chego, ele apanha algumas para os miúdos.

 

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Hoje sugiro eu o trajeto. Descer pelo outro lado da montanha e encher os olhos desta vista.

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Claro que, como eu previra, ele não resiste aos caminhos que conduzem aos moinhos e eu sou obrigada a segui-lo. Ocorre-me, por instantes, Dom Quixote a combater os gigantes, mas eu seria, então, Sancho Pança, e, infelizmente, ou não, sinto-me com a mesma loucura do Dom Quixote que segue montado na BMW à minha frente, por isso, não sou Sancho Pança. Somos outras personagens.

Somos Baltasar e Blimunda, atrás da passarola perdida nesta serra... eu estou a aprender a recolher vontades...

 Lamento não ter a GS, mas vou incentivando mentalmente a Branquinha, para que ela não caia quando passamos pela brita solta dos caminhos. Temos uma combinação secreta que eu me esforço por cumprir, eu não a deixo cair e ela não me atira ao chão.20161028_152027.jpg

Chegamos enfim ao último moinho. Paramos e apreciamos a paisagem. Sinto-me viva.

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Um senhor ronda o moinho. Vem ver-nos, e o marido não resiste a cumprimentá-lo. Conversam. Das aldeias ao redor, dos moinhos, do tempo... Eu não sei falar do tempo, mas peço para tirar uma fotografia ao moinho. E o senhor, reconhecido, há de confessar-nos mais tarde que também há uns dias atrás passou por lá uma outra pessoa de mota que o ignorou completamente e até tirou fotografias, sem pedir autorização, que, via-se logo, nós éramos diferentes, grato pela atenção perguntou-nos se queríamos ver o moinho.

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Olhamos para o relógio. Somos amantes de tempo contado. Mas eu digo "Nunca vi um moinho de vento por dentro" e o marido quer deixar-me feliz "fazemos uma visita rápida".

O "moleiro" faz-nos uma visita guiada maravilhosa. A recuperação do moinho, reconstruído pelo pai em 1954, e, depois, em 1986, de novo a funcionar pela sua mão.

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Mostra-nos as mós: duas de trigo, uma para o milho: Fala-nos do funcionamento. Explica tudo com uma paixão entusiástica. As cordas para segurar as mós, as picadeiras, para picar as mós, quando ficam gastas de moer tanto milho, o símbolo dos moleiro, não é uma questão de religião, explica, é só para saber onde a mó deve encaixar, é um símbolo...O moinho é antigo, vê-se gravada uma data, 1889 e ele afirma que sempre ali a viu. 

 

O moinho é encantador. Ele lamenta que o pai não possa ver o moinho, agora, recuperado. Eu garanto-lhe que, pelo menos eu, gosto imenso!

Olhamos para o relógio. Talvez pudessemos ficar ali a tarde toda, mas somos mesmo amantes de tempo contado. Não nos podemos atrasar. Os amantes nunca se atrasam para as suas famílias.

Damos ainda uma espreitadela final à casinha de apoio ao lado do moinho. É uma casinha de exposição, onde não há um único pormenor deixado ao acaso. Há fotografias, e reconhecemos o filho do senhor. Estamos perto de casa, afinal. 

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Ainda assim, pela novidade, pelo encanto, parece-nos, por instantes, que viajámos para longe.

De mota os caminhos de casa transformam-se e ganham sabor de destino longínquo. De mota, um dia ainda aprendo a falar sobre o tempo. Tenho o melhor professor!

Boas curvas!

07
Out16

Por falar em motas # 3

Dora Sofia

Marido: África é realmente fascinante, enfeitiçante, mágica, mas sabes o que é mais surpreendente? É que, enquanto eu andava por lá, só pensava como seria maravilhoso andar por ali na minha mota... Eu: Sabes o que é verdadeiramente surpreendente? É que eu nunca andei por lá e só penso como deve ser maravilhoso andar por lá na minha mota!!

02
Out16

Quantos anos tens?

Dora Sofia

Este mês faço anos. Gosto de fazer anos. Talvez ainda esteja em idade de gostar de fazer anos. Não sei. Não ligo muito a essa coisa da idade. Ouvi há dias que a idade que tens não tem importância nenhuma, a não ser que sejas um vinho... Eu também acho. Não sou um vinho... Aliás, se viver tantos, e tão bons, anos como a minha bisavó, ainda não estou a meio da minha vida, e isso só pode deixar-me feliz!

Gosto de pensar que esta é a idade certa para fazer o que estou a fazer.

Às vezes, muitas vezes, conto esta história engraçada de não desistir dos sonhos, de comprar mota depois dos quarenta, de me apaixonar pelo mundo das motas depois dos quarenta e as pessoas parecem sempre surpeender-se. Perguntam-me quantos anos tenho como se houvesse uma idade limite para se realizarem os sonhos, ou para se andar de mota com o mesmo prazer de um andolescente rebelde que "rouba" a mota ao pai para percorrer trilhos num pinhal (sim, eu nunca "roubei" a mota ao meu pai em adolescente, mas acredito que o prazer que sinto a andar de mota deve ser o mesmo...). E  tenho esta teoria meio louca, meio séria, de que em relação aos anos que tens, tal como em relação aos quilómetros que tens em cima de uma mota, a pergunta certa não é "quantos já fizeste?", mas "quantos vais fazer?". Mas rio-me perante o espanto, e respondo-lhes que tenho a idade certa para fazer o que me deixa feliz.

E, se, por um acaso (e tudo na minha vida é sempre por uma acaso repleto de vontade, e paixão, e um pouco mais de vontade), e se, por esse acaso que eu construí, no mês em que fazes quarenta e dois anos, menos de um ano depois de teres a tua mota, já rodaste estrada suficiente para saberes que os teus melhores amigos estavam errados quando te disseram que esta loucura das motas não sobreviveria aos meses de inverno,  e afinal esta loucura das motas cresceu e eu quero cada vez mais rodar cada vez mais estrada, e, ainda por esse acaso, que eu teço com fios de vontade e paixão, escreves, no mês em que fazes quarenta e dois anos, um artigo dedicado a este tema forte de "Girl Power", para uma revista como a Motociclismo, acreditas mesmo que este é bem capaz de ser o caminho certo!

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Boas curvas| 

 

01
Out16

Bom dia, outubro!

Dora Sofia

Gosto de recomeços. Já sabem como eu gosto de recomeços. Oportunidades de começar tudo outra vez.

Os fins perdem a sua importância face à possibilidade constante de recomeçar. Hoje. Agora!

Esqueço o ontem. Não sou de saudades, não sou de passados. Recomeços, apenas. E, se há borboletas a viajar em mim, voemos mundo fora!!

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Boas curvas!

 

 

28
Set16

Desabafos

Dora Sofia

O início do ano letivo está a ser difícil. 

Subo para cima da mota. Quando rodar a chave, ligar a ignição, os sentimentos vão misturar-se com a velocidade e vão ficar espalhados pelo ar... A mota descontrai-me.

Desta vez não prendo o cabelo. Quero os cabelos ao vento. Quero que saibam quem eu sou...

Quero pensar em coisas boas. Penso em coisas boas. 

 

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 E depois penso que nunca devia ter feito este test-drive... Raios!

E, agora, há também as Café Racer a deixar-me de água na boca. Espreitem só como elas são TÃO lindas... A EVA é da: Maria Motorcycles!! Uma inspiração (mais uma...) para não deixar de sonhar!

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O início do ano letivo está a ser difícil. 

Felizmente, posso vir da escola de mota, para deixar a escola na escola.

 

Boas curvas!

26
Set16

Benção dos capacetes 2017

Dora Sofia

Eu devia escrever sobre as borboletas na barriga que se agitaram logo, logo, enquanto o rapaz preparava as motas. Da janela da cozinha conseguia vê-lo muito bem a verificar tudo, ajustar os parafusos do vidro, lavar, pôr óleo, limpar as viseiras... E eu cheiinha de borboletas na barriga. Sabem aquela sensação de fazer as malas antes de uma viagem? É a mesma! Íamos à Benção dos Capacetes.

Devia escrever sobre a novidade de andar de mota com um grupo.

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Bem, podem dizer que já andei em grupo, no Portugal de lés-a-lés. E andei. Mas não é a mesma coisa. Aqui a ideia era sair de casa com o grupo e seguirmos até Fátima. Ora, alguns deles sabem bem que ando de mota há pouco tempo... E, depois, há sempre o tal pormenor... sou mulher! Por isso, andei meia dúzia de quilómetros com a sensação desagradável de achar que tinha todos os olhares sobre mim, como se tivesse de fazer tudo bem feito. Mas, depois, houve um momento, aquele momento!, em que o vento no rosto e o acelerador na mão foram mais fortes do que tudo, e lembro-me de ter pensado "Que se dane! Aprecia a viagem!". E larguei estrada fora. Eu e a minha mota, com os olhos na mota da frente. Quero lá saber!...

Também devia escrever sobre a emoção das estradas repletas de motas, sobre a emoção de um missa para milhares de motards, sobre a emoção de, mais uma vez, perceber como somos tão diferentes e como partilhamos o mesmo gosto pelas motas. E somos muitos! De diferentes formas e feitios... como as motas que por lá páram.

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Podia escrever sobre o prazer que tenho em conhecer lugares. Os sítios são tão diferentes quando andamos de mota! Tão diferentes, que, às vezes, muitas vezes, era capaz de jurar que nunca passei ali...É tudo tão novo.

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Mas não, não vou escrever sobre isso. Isso já passou. 

Vou escrever sobre o dia depois do dia da Benção dos Capacetes. Vou escrever sobre as viagens dos dias. Vou escrever sobre viagens de ir ali ao lado. Todas as viagens são boas!

Trinta quilómetros de casa. Trinta para lá, mais trinta para cá. E que bem que me souberam... Adoro andar de mota! As curvas do Oeste são uma coisa sem explicação. Entre Torres Vedras e o Bombarral, há muito alcatrão para se ser feliz!! 

Sim, bem sei que não são os caminhos que hei de percorrer com a GS (um dia...), mas eles estão lá, que eu bem os vejo, e são uma provocação.

Enquanto isso, vamo-nos fazendo às curvas, eu e a Branquinha. 

 

Boas curvas!

 

20
Set16

Vestida para matar... estrada!!

Dora Sofia

Visto o casaco. Faço uma trança apressada, ou, no limite, prendo o cabelo com dois elásticos. Debaixo do casaco, a blusa de cetim revela o dia de trabalho. Debaixo do capacete, o batom define o prazer de ser mulher.

E sigo. Se é um dia bom, consigo fazer um desvio de meia dúzia de kilómetros, só para ir ali ao lado passear as ideias... antes ou depois do trabalho... antes ou depois do supermercado... antes ou depois do ginásio...

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Não encontro desculpas para não andar de mota: a roupa certa protege-me do frio, do calor, do vento, da chuva, dos rails...

Sim, eu sei que há quem imagine que, se sou mulher, e se ando de mota, então, visto-me assim:

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Errado! Muito errado.

Para andar de mota, não uso "stilettos", não ponho uma saia, não escolho calções. Quem anda de mota, sabe bem porquê. Usar "stilettos" tornaria a utilização dos pedais tão facilitada como se tivéssemos patas de elefantes; já quanto ao resto, sei por experiência que umas calças com proteção podem garantir uns quantos cortes a menos na pele e, até no calor, o melhor é seguir o lema "mais vale suar do que sangrar!"

Não vou deixar de ser quem sou, porque ando de mota. Também não vou deixar de me vestir como gosto, porque ando de mota.

Mas também não tenho de vestir-me assim:

anatomia do motard.jpgimagem daqui

Debaixo do casaco esconde-se a roupa que eu quiser:  uma camisola mais informal, uma blusa para a escola, uma t-shirt para o ginásio... 

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Posso até vestir-me como a Skinny , mas noutra cor. Pode ser? 

Skinny_27.jpgimagem daqui 

E, já agora, com outro "ursinho". Pode ser? Pode? Pode?...

 

 

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Boas curvas! 

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