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De capacete e batom

De capacete e batom

13
Set16

De Faro a Góis: kit básico de sobrevivência para mulheres

Dora Sofia

Nem é que eu seja muito de esquisitices ou dada a xiliques com o pó e casas de banho públicas, mas, e apesar dos avisos dos experientes nestas andanças, uma mulher tem de se preparar em casa. E não, não levo as malas da mota do marido cheias de roupas e maquilhagem, como ele apregoa aos sete ventos, mas já construí o meu kit básico de sobrevivência.

Devem estar a pensar que a primeira coisa é o batom, certo? Não, errado! O batom faz parte do meu kit de sobrevivência de todos os dias. É... eu sou mulher, e gosto!

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 Mas se repararem bem na imagem, conseguem ver ali mesmo em frente à tenda o primeiro objeto: uns chinelos de banho. Para mim, bem altos, de preferência, para que, de cada vez que vamos tomar banho, não fiquemos com os pés assentes em... água... suja...

Bem, a  primeira coisa é, na realidade, duas coisas: os chinelos e um bikini. O bikini porque percebes, rapidamente, que com um biquini nunca estás nua e podes sair da tenda, entrar na tenda, tomar banho, sair do banho, sem estar de roupa interior... Trocas de camisola, vais tomar um duche, danças até ficares descamisada... enfim, estás de biquini!

Afinal, nas concentrações, é mesmo nos banhos que tu percebes se és capaz de voltar outra vez, ou se gosto muito de motas, mas não obrigada...

Confesso que, em Faro, os banhos foram pacíficos. Estavam 43º por lá, lembram-se? Ultrapassada a estranheza de tomar banho debaixo de uns chuveiros improvisados (tubos com chuveiros pendurados de metro em metro), ultrapassada a estranheza de partilhar o banho com mais 20 ou 30 motards, como orgia-em-versão-banho, ultrapassada a estranheza de não ter água quente (logo eu que, se, por acaso, acaba o gás e eu de espuma no cabelo, saio à rua assim mesmo e digo que é penteado novo), ultrapassado tudo isso, foi fácil. Estavam 43º e isso era suficiente.

Já em Góis, estava frio. Um nevoeiro horrivel, umas nuvens sombrias e vestígios da chuva da noite, afastaram por momentos a ideia. Mas, depois, fui até lá. Foi o meu erro. Entro no corredor dos chuveiros, como condenado no corredor da morte, e ouço os gritos dos homens (sim, só havia homens!) de cada vez que a água lhes caía em cima. Olham-me de lado, têm a certeza que eu não vou conseguir, leio-lhes nos olhos. Sinto os sorrisos críticos quando o meu marido me avisa "esquece! é impossível!". Eu estou ali ao lado dele, ele a ensaboar-se já, e eu a ver todos à espera que eu me retire. De repente, sei lá porquê, lembro-me do Afonso da Maia e dos banhos no tanque no inverno ao coitado do Carlos. Caramba, miúda, penso, és algum Eusebiozinho? E atiro-me para debaixo do chuveiro! Pronto, eu confesso que ia dar um gritinho daqueles à desenho animado japonês, mas consegui engoli-lo a tempo. E é quando eu vejo a surpresa e o espanto nos olhos dos outros que eu percebo que vou continuar a ir às concentrações, porque sou mais Carlos do que Eusébiozinho... ainda que o grito continue aqui preso na garganta, só, só de pensar.

Depois, no kit, tesoura, uma agulha e linhas de costura.

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Estranho?! Nem por isso. Se forem mulheres e foram a concentrações sabem que as t-shirts que eles nos dão são todas a pensar em homens, sem gracinha, sem estilo próprio. Enfim, todas iguais. Bem, e eu detesto ser igual! Por isso, uma tesourinha pequena e umas linhazitas fazem milagres:

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 Por fim, algumas dicas preciosas:

Uma garrafa de água, mesmo em cima da mota, para lavar os dentes, a cara, as mãos, poupa-te imensas viagens às casas de banho; e um saco do lixo ao lado da tenda evita que daqui a uns anos não tenhas sítios lindos para concentrações...

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E, claro, não esquecer a máquina fotográfica, ou telemóvel "fotográfico", ou qualquer coisa do género...

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 Que tal? Esqueci-me de alguma coisa? O que consideram que faz falta no meu kit?

 

 

 

 

02
Set16

De Faro a Góis: entre o mundo e a minha aldeia

Dora Sofia

Fomos a Faro! Suficientemente loucos para não esperarmos pelo fim da tarde, enfrentámos os 43 graus que marcavam na planície alentejana. A ideia era ir só ali ao restaurante da esquina almoçar e esperar que as horas ensombrassem o dia, mas, como sempre, o mal é começarmos a andar, ouvirmo-las e percebermos que podemos, se quisermos, continuar... Queremos sempre! Com direito a paragem para refrescar debaixo da água das estações de serviço, só parámos em Faro. Quentes e felizes.

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A concentração de Faro é um mundo. Um mundo de paixão pelas motas, um mundo de gente diferente, um mundo de gente estrangeira, estranha e maravilhosa. Um mundo onde o barulho ininterrupto, constante e brutal das motas se apodera de ti.Infiltra-se na pele, juntamente com a poeira do chão e dá-te uma sensação de liberdade, uma sensação de todo o tempo. Faro é Álvaro de Campos, "Sentir tudo de todas as maneiras/Viver tudo de todos os lados,". Quero voltar a este poema no próximo no ano, e no próximo, e no próximo... 

IMG_20160716_131347.jpgDepois, fomos a Góis. Voltámos a Góis. Com, quase!, todo o tempo do mundo.  Deliciámo-nos com as curvas que nos levam até lá (sim, surpreende-me, ainda, o prazer de cada curva!!) e enfrentámos as sombras do arvoredo que anunciavam a chuva do dia seguinte. Tal como não me incomoda o sol escaldante de Faro, também não me incomoda a chuva de Góis. 

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A concentração de Góis é a aldeia onde eu nasci. A mesma paixão pelas motas, mas gente que é, quase sempre, como a gente, onde há famílias que estão por ali de férias (alguns vieram de carro...), ou grupos de rapazes e raparigas mais novos que só vêm pela noite, para a música, para a cerveja, para os namoros, ou grupos de "homens" que aproveitam para estar um pouco longe das mulheres e beber cervejas, sem que a todo o momento lhes digam "estás a beber demais" e que, por isso, bebem demais, e passam o dia seguinte a dormir. Em Góis não se ouvem as motas de noite, mas acordas com os " rateres" das motorizadas barulhentas dos teenagers.

Em Góis, há um espírito de intimidade, de "portuguesismo" que é genuíno. Góis é Caeiro, "E por isso porque pertence a menos gente,/É mais livre e maior o rio da minha aldeia." Também quero voltar a este poema, porque é belo e sinto que faço parte dele.

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(continua...)

 

Boas curvas!

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