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De capacete e batom

De capacete e batom

29
Out16

Moinhos de vento

Dora Sofia

 

Mesmo quando ando de mota sozinha, não ando de mota sozinha. Mas, ainda assim, prefiro o não andar sozinha com o outro mesmo ao lado. Parecemos dois amantes. Dos amantes amantes. Dos amantes dos encontros às escondidas, dos amantes dos almoços combinados à última hora, dos amantes que roubam sempre tempo aos dias sem tempo, dos amantes das viagens juntos, dos amantes das paixões em comum. 

O encontro foi no Bar da Serra, para um café. Desculpas de quem quer rodar estrada fora, fazer curvas. Sabíamos que o café estaria fechado. Estava. Mas é o lugar perfeito para beijos apaixonados, longe de olhares indiscretos. Há nesta serra uma vegetação de bosque encantado de conto de fadas. E também há castanhas, e, quando chego, ele apanha algumas para os miúdos.

 

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Hoje sugiro eu o trajeto. Descer pelo outro lado da montanha e encher os olhos desta vista.

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Claro que, como eu previra, ele não resiste aos caminhos que conduzem aos moinhos e eu sou obrigada a segui-lo. Ocorre-me, por instantes, Dom Quixote a combater os gigantes, mas eu seria, então, Sancho Pança, e, infelizmente, ou não, sinto-me com a mesma loucura do Dom Quixote que segue montado na BMW à minha frente, por isso, não sou Sancho Pança. Somos outras personagens.

Somos Baltasar e Blimunda, atrás da passarola perdida nesta serra... eu estou a aprender a recolher vontades...

 Lamento não ter a GS, mas vou incentivando mentalmente a Branquinha, para que ela não caia quando passamos pela brita solta dos caminhos. Temos uma combinação secreta que eu me esforço por cumprir, eu não a deixo cair e ela não me atira ao chão.20161028_152027.jpg

Chegamos enfim ao último moinho. Paramos e apreciamos a paisagem. Sinto-me viva.

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Um senhor ronda o moinho. Vem ver-nos, e o marido não resiste a cumprimentá-lo. Conversam. Das aldeias ao redor, dos moinhos, do tempo... Eu não sei falar do tempo, mas peço para tirar uma fotografia ao moinho. E o senhor, reconhecido, há de confessar-nos mais tarde que também há uns dias atrás passou por lá uma outra pessoa de mota que o ignorou completamente e até tirou fotografias, sem pedir autorização, que, via-se logo, nós éramos diferentes, grato pela atenção perguntou-nos se queríamos ver o moinho.

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Olhamos para o relógio. Somos amantes de tempo contado. Mas eu digo "Nunca vi um moinho de vento por dentro" e o marido quer deixar-me feliz "fazemos uma visita rápida".

O "moleiro" faz-nos uma visita guiada maravilhosa. A recuperação do moinho, reconstruído pelo pai em 1954, e, depois, em 1986, de novo a funcionar pela sua mão.

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Mostra-nos as mós: duas de trigo, uma para o milho: Fala-nos do funcionamento. Explica tudo com uma paixão entusiástica. As cordas para segurar as mós, as picadeiras, para picar as mós, quando ficam gastas de moer tanto milho, o símbolo dos moleiro, não é uma questão de religião, explica, é só para saber onde a mó deve encaixar, é um símbolo...O moinho é antigo, vê-se gravada uma data, 1889 e ele afirma que sempre ali a viu. 

 

O moinho é encantador. Ele lamenta que o pai não possa ver o moinho, agora, recuperado. Eu garanto-lhe que, pelo menos eu, gosto imenso!

Olhamos para o relógio. Talvez pudessemos ficar ali a tarde toda, mas somos mesmo amantes de tempo contado. Não nos podemos atrasar. Os amantes nunca se atrasam para as suas famílias.

Damos ainda uma espreitadela final à casinha de apoio ao lado do moinho. É uma casinha de exposição, onde não há um único pormenor deixado ao acaso. Há fotografias, e reconhecemos o filho do senhor. Estamos perto de casa, afinal. 

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Ainda assim, pela novidade, pelo encanto, parece-nos, por instantes, que viajámos para longe.

De mota os caminhos de casa transformam-se e ganham sabor de destino longínquo. De mota, um dia ainda aprendo a falar sobre o tempo. Tenho o melhor professor!

Boas curvas!

19
Jan16

Os caminhos incompletos - parte 1

Dora Sofia

Andar de mota é sempre uma surpresa boa. Aprendes a aceitar o que te revela cada curva como uma aventura, com o olhar surpreendido de quem vê tudo pela primeira vez. O planeado não é o planeado, e o caminho pode nunca ser o que traçaste. O caminho oferece-te as possibilidades de uma vida: viras à esquerda mesmo quando planearas virar à direita, voltas atrás, paras, recomeças, traças um novo caminho…são os caminhos que fazem da tua vida uma viagem.

Desta vez o caminho far-se-ia pela costa, de Nazaré a Peniche, para enchermos os olhos de mar.

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 Na Nazaré, procurávamos um restaurante, enquanto apreciávamos o mar calmo lá em baixo, a antecipar desejos de verão.

A vontade pedia-nos peixe, mas o dia era cruel. Segunda-feira de chuva não é dia de passeios de mota, não é dia de restaurantes abertos, não é dia de peixe fresco. Porém, há muito que descobrimos que os dias certos são só os dias que escolhemos para nós e que bebemos até à última gota.

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Estacionamos para espreitar o mar e um cantinho de restaurante encontra-nos, por acaso, e acena-nos com um menu repleto de peixe. Não hesitamos. Tem tudo o que queremos: as motas debaixo dos nossos olhos, paradas na esplanada e, pelo menos, oito pratos diferentes de peixe.

Lá dentro há meia dúzia de mesas cobertas por toalhas improvisadas, há gente que parece estar em casa, e temo ver chegar alguém em pijama, ouve-se música pimba da rádio local e os pratos de peixe são, afinal, um robalo. Único. Fresquinho! – garantem-nos – pescado por aquele rapaz ali. E o rapaz acena a confirmar que sim.

Não há cerimónias. Nem legumes. Há batatas e um robalo grelhado. Os donos da “casa” sentam-se na mesa ao lado a almoçar, enquanto comentam as notícias. Houve cheias em Coimbra. Não percebem… se o mosteiro é na parte alta. O meu marido agarra o isco (agarra-os sempre) e explica. Aquele é o mosteiro velho, não o novo.

E pronto. A licença para a conversa fica concedida. Perguntam-nos de onde somos e, nós, como sempre, atrapalhamo-nos, somos daqui e dali, um pouco de todo o lado, um pouco de lado nenhum. Mas é o suficiente para entabular conversa. Não eu! Já disse que não sei falar do tempo, mas ele ocupa-se dessas artes sociais como ninguém.

Ficamos a saber que a Nazaré já não é a Nazaré das sete saias, mas é, agora, a Nazaré do McNamara. Vêm para aí- dizem – e perguntam-nos aonde é a onda. Vejam só, aonde é a onda! Ondas sempre houve. Há anos que vejo ondas nesta terra e eles agora vêm para aí à procura da onda. Tudo muito bem. Está tudo muito bem. Não se importam com as enchentes de turistas, olheiros, surfistas e staff de apoio, nos dias em que põem lá no facebook que é dia de ondas, mas gostariam de saber quem há de pagar o Centro de Alto Rendimento de Surf. Não quem o pagou, mas quem é que ainda o há de pagar.

Além disso, confessa-nos em surdina, não acredita no tamanho da onda. 50 metros? Não pode ser, caramba! Isso entrava pela terra adentro. A mulher insurge-se, então. Não lhe liguem, ele só fala assim porque não é de cá… E ele: mas vivo cá há 30 anos e já tomei muitas vezes banho naquelas águas… Mas não é a mesma coisa, remata ela, enquanto se levanta a fechar a conversa. Se fosses, não dizias isso… Ele encolhe os ombros e lança um olhar de cumplicidade ao meu marido ao que este responde com um sorriso compreensivo. Parou de chover, digo eu, mas sou ignorada por todos, para que não possa esquecer que não sei falar do tempo.

Oferece-nos uma ginjinha de Alcobaça. Ainda estou a tentar recusar, quando percebo que não era uma pergunta. Já temos a garrafa na mesa. É por conta da casa! - lembra -  como se, por isso, não fosse possível recusar.

E ainda bem! A ginja era ótima, as pessoas deliciosas e poderíamos ter ficado ali a tarde toda a ouvir as histórias daquelas gentes, mas tínhamo-nos prometido outras ondas. Depois do Farolim da Nazaré, seguimos para S. Martinho do Porto, para percebermos que, afinal,  uma das coisas boas de andar de mota é quebrar promessas…

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 Boas Curvas!

09
Nov15

A primeira vez

Dora Sofia

Tinha 18 anos quando sonhei em ter mota. Quis tirar a carta de mota. O meu pai disse que não, que não entendia para quê, que não me serviria para nada, que não pagava. E não pagou. E eu fui para as vindimas, levantar-me de madrugada, sentir o barro que se pega às botas quando chove, e sentir o mosto que se cola à pele quando o sol aquece, para ganhar dinheiro para tirar a carta. Penso que foi a primeira vez, ou talvez a única, em que "desobedeci" ao meu pai, em que me "independentei" do meu pai...

Durante muitos anos, ele acreditou que teve razão... que não me serviria para nada. 

Durante muitos anos, eu acreditei que haveria de passear na minha mota. Deixar-me ir com ela, sem destino, ou com destino disfarçado de sem destino, como nos parecem sempre os destinos de andar de mota. 

Hoje demos a nossa primeira voltinha.

Tenho 41 anos, a provar que os sonhos não têm prazo de validade... 

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Boas curvas!

 

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