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De capacete e batom

De capacete e batom

23
Mai18

As saudades que eu tinha...

Dora Sofia

A Branquinha II regressou. E, com ela, as fugas aos dias sem tempo. 

Não importa.  Não. Não importa tanto assim, que ande 200 ou 20. Prefiro 200, mas estes 20, aqui nos meus caminhos, na minha serra encantada, que me enche de luz e sol, são a promessa de muitos 200 que se aproximam.  

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Vou saboreando curvas e contracurvas, reatando esta relação com a Branquinha. Entendemo-nos bem.  Eu gosto dela e, às vezes, muitas vezes, parece-me que é a mota perfeita para mim.  Pelo menos hoje, ainda, é. 

Mas sou GS.  Caminho e estrada. Terra e alcatrão. Vontade e razão. 

Não sou motociclista de tarde de verão, de café de domingo. Sou motociclista porque gosto. Sempre. Se chove e se faz sol, se tenho de ir às compras ou à praia, se subo a serra ou desço à escola. 

Por isso, a insatisfação. Não, não é insatisfação; é um quero mais, é um daqui a uns tempos... 😉

 

 

Boas curvas!

 

29
Out16

Moinhos de vento

Dora Sofia

 

Mesmo quando ando de mota sozinha, não ando de mota sozinha. Mas, ainda assim, prefiro o não andar sozinha com o outro mesmo ao lado. Parecemos dois amantes. Dos amantes amantes. Dos amantes dos encontros às escondidas, dos amantes dos almoços combinados à última hora, dos amantes que roubam sempre tempo aos dias sem tempo, dos amantes das viagens juntos, dos amantes das paixões em comum. 

O encontro foi no Bar da Serra, para um café. Desculpas de quem quer rodar estrada fora, fazer curvas. Sabíamos que o café estaria fechado. Estava. Mas é o lugar perfeito para beijos apaixonados, longe de olhares indiscretos. Há nesta serra uma vegetação de bosque encantado de conto de fadas. E também há castanhas, e, quando chego, ele apanha algumas para os miúdos.

 

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Hoje sugiro eu o trajeto. Descer pelo outro lado da montanha e encher os olhos desta vista.

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Claro que, como eu previra, ele não resiste aos caminhos que conduzem aos moinhos e eu sou obrigada a segui-lo. Ocorre-me, por instantes, Dom Quixote a combater os gigantes, mas eu seria, então, Sancho Pança, e, infelizmente, ou não, sinto-me com a mesma loucura do Dom Quixote que segue montado na BMW à minha frente, por isso, não sou Sancho Pança. Somos outras personagens.

Somos Baltasar e Blimunda, atrás da passarola perdida nesta serra... eu estou a aprender a recolher vontades...

 Lamento não ter a GS, mas vou incentivando mentalmente a Branquinha, para que ela não caia quando passamos pela brita solta dos caminhos. Temos uma combinação secreta que eu me esforço por cumprir, eu não a deixo cair e ela não me atira ao chão.20161028_152027.jpg

Chegamos enfim ao último moinho. Paramos e apreciamos a paisagem. Sinto-me viva.

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Um senhor ronda o moinho. Vem ver-nos, e o marido não resiste a cumprimentá-lo. Conversam. Das aldeias ao redor, dos moinhos, do tempo... Eu não sei falar do tempo, mas peço para tirar uma fotografia ao moinho. E o senhor, reconhecido, há de confessar-nos mais tarde que também há uns dias atrás passou por lá uma outra pessoa de mota que o ignorou completamente e até tirou fotografias, sem pedir autorização, que, via-se logo, nós éramos diferentes, grato pela atenção perguntou-nos se queríamos ver o moinho.

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Olhamos para o relógio. Somos amantes de tempo contado. Mas eu digo "Nunca vi um moinho de vento por dentro" e o marido quer deixar-me feliz "fazemos uma visita rápida".

O "moleiro" faz-nos uma visita guiada maravilhosa. A recuperação do moinho, reconstruído pelo pai em 1954, e, depois, em 1986, de novo a funcionar pela sua mão.

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Mostra-nos as mós: duas de trigo, uma para o milho: Fala-nos do funcionamento. Explica tudo com uma paixão entusiástica. As cordas para segurar as mós, as picadeiras, para picar as mós, quando ficam gastas de moer tanto milho, o símbolo dos moleiro, não é uma questão de religião, explica, é só para saber onde a mó deve encaixar, é um símbolo...O moinho é antigo, vê-se gravada uma data, 1889 e ele afirma que sempre ali a viu. 

 

O moinho é encantador. Ele lamenta que o pai não possa ver o moinho, agora, recuperado. Eu garanto-lhe que, pelo menos eu, gosto imenso!

Olhamos para o relógio. Talvez pudessemos ficar ali a tarde toda, mas somos mesmo amantes de tempo contado. Não nos podemos atrasar. Os amantes nunca se atrasam para as suas famílias.

Damos ainda uma espreitadela final à casinha de apoio ao lado do moinho. É uma casinha de exposição, onde não há um único pormenor deixado ao acaso. Há fotografias, e reconhecemos o filho do senhor. Estamos perto de casa, afinal. 

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Ainda assim, pela novidade, pelo encanto, parece-nos, por instantes, que viajámos para longe.

De mota os caminhos de casa transformam-se e ganham sabor de destino longínquo. De mota, um dia ainda aprendo a falar sobre o tempo. Tenho o melhor professor!

Boas curvas!

12
Abr16

O tempo dos dias

Dora Sofia

A vida é cheia destes dias em que, ao acordar, adivinhas as horas imensas, sem pausas, sem intervalos e que, ainda assim, chegado o final, percebes, ou nem percebes, como couberam tantas coisas nessa imensidão de dia: o trabalho, os filhos, as emoções, os medos, as dúvidas, os amigos... Sim, há dias assim. Felizmente, pudeste escolher a ementa para o almoço: curvas de Montejunto como prato principal e nuvens do céu como sobremesa.

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Ando, pois, a brincar às escondidas com a chuva e a enganar o tempo dos dias, enquanto treino as minhas curvas em descidas. Se há vontade e há paixão, faça-se o caminho!

Boas curvas!

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