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De capacete e batom

De capacete e batom

11
Abr17

Road Miles Chalenge: 300 milhas de emoções!

Dora Sofia

Fomos ao Road Miles - Motorcycle RoadBook Challenge.

Não resistimos à provocação. Desafio, superação, e um percurso cheiinho de belas paisagens eram atrativos mais do que suficientes para nos convencerem, e, por isso, quando ele acenou com o convite, ou eu, já não sei bem, antes que o outro dissesse que sim, já estávamos inscritos...

Só depois reparei que o evento estava direcionado para a vertente moto turística de aventura. Bem, a minha Branquinha não é bem o que se pode considerar uma moto turística de aventura, mas aventureira, ela é, e gosta de rolar, por isso, à chegada... o costume! Uma pequena entre grandes. O marido diz que ela é como o papagaio dos 102 dálmatas que estava convencido que era um cão e gritava :"Sou um rotweiler! Sou um rotweiler!". A minha Branquinha também deve julgar que é grande: "Sou uma big trail! sou uma big trail!" 

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O Road Miles foi uma montanha russa de emoções. Não pelos quilómetros percorridos (já o ano passado tínhamos feito os 700 de uma das etapas do Portugal de lés-a-lés), mas pelo espírito de ultrapassar aquelas curvas (eu e as curvas em descidas, e a velocidade...) e chegar ao fim e continuar, ainda, a gostar de andar de mota. Gosto. Ainda!

A nossa base, e ponto de encontro, era o Hotel dos Templários, em Tomar (sim, sim, nem só de poeira e tendas de campismo vive um motociclista!). Cada um de nós seguiu pelo caminho mais longo, porque a logística familiar obriga a estes desvios de fazer sempre mais umas centenas de quilómetros. Mas, chegados, houve tempo para um mergulhinho na piscina, um jantarzinho a namorar, uma cerveja nas ruas de Tomar, que estava em festa, mesmo antes do briefing, onde a Organização (nota 10!!) nos acenou com um passeio repleto de boas curvas!

Na hora de partir, o sol começava a brilhar lá atrás e prometia-nos um dia maravilhoso! Nós agarrámos a deixa, e deixámo-nos levar guiados por ele e pelo RoadBook.

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O percurso foi, como anunciado, marcado por lugares bonitos, para ver, conhecer, visitar. De Tomar a Tomar, pela Nazaré, S. Martinho do Porto, Alcobaça, Chamusca, Serra de Aires e Candeeiros, Olhos de Água , Mação, Oleiros, Dornes... Mas os quilómetros pela frente não nos deixavam descuidar; bem, os quilómetros e o rapaz da GSA que vai à minha frente e que me deixa de cabelos em pé, porque acha sempre que passa muito tempo à minha espera. Ainda assim, consegui enganá-lo nas primeiras paragens e tirar umas fotografias.

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Lugares cheios de história e com muitas histórias com gente lá dentro. Gente que vamos conhecendo, gente com quem nos identificamos, nisto e naquilo, e com quem temos sempre em comum a paixão pelas motas.

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A paragem em Oleiros, na praia fluvial, onde fomos tão bem recebidos, deu para recarregar energias, mas à medida que o desafio avançava sentia-me mais cansada e fui percebendo que talvez estivesse apenas a ser egoísta por querer fazer equipa com o meu amor grande. Foi uma visão nova destes eventos! Afinal, se é verdade que eu o consigo acompanhar, só o consigo fazer porque ele vai muuuiiiito mais devagar do que o que decerto gostaria, por outro lado, ele segue à frente, mas com uma constante preocupação de que eu venha logo ali atrás, e, depois, bem, depois, eu quero que ele se divirta! E, no final, à chegada ao Hotel não lhe disse as palavras do costume "voltamos outra vez no próximo!", mas antes "tens de começar a vir sozinho!". Ele olhou para mim com aquele ar de "estás doida!" e disse-me " mas eu quero vir contigo! Eu gosto de vir contigo!"

E pronto! Tentei não pensar mais no assunto, porque, depois de 500 quilómetros de estrada, sabe mesmo, mesmo bem, chegares ao Hotel, beberes um gin, e ouvires o pianista tocar uma música agradável, enquanto respiras um pouco, e antecipas o teu banho demorado e um jantar em boa companhia.

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Mas as emoções não ficariam por ali. No dia seguinte eu lembrei-o que talvez a minha inexperiência não pudesse fazer equipa com os anos que ele tem a andar de mota. Talvez a vontade não fosse suficiente. E ele repondeu que não, não era isso. Faltava-me dar o salto. Só isso. 

Íamos receber os certificados. A organização tinha uns prémios para os três mais regulares a cumprir as 300 e as 500 milhas, e eu pensava naquilo que ele me dissera. Afinal, era fácil, se só tinha de melhorar, só precisava mesmo era de... andar de mota 

Vemos a lista de classificação. Não ficámos em primeiro (o que seria impossível, com o número de vezes que ele voltou para trás), mas não ficámos em último ( o que também era improvável, uma vez que era suposto cumprirmos os limites de velocidade e nisso estava lá eu para ajudar...); aliás ficámos antes do meio da tabela, o que não é nada nada mau. 

Depois, veio a surpresa! "E temos aqui uma lembrancinha para a Dora, que foi a única senhora a terminar o Road Miles!"

A sério?!! Sabem lá o que umas palavrinhas destas fazem ao ego ferido de uma motociclista? Sim, sim, porque se eu estava um pouco desalentada por não conseguir acompanhar o marido nestas voltas de mota, e estas palavrinhas devolveram-me a vontade. Aquela vontade de ir mais longe, fazer melhor, desafiar-me! 

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O prémio foi bom, mas o melhor foi este reconhecimento. Obrigada! Obrigada! Aos organizadores, pelo miminho; aos patrocinadores, que contribuíram com os prémios (e que recheada vinha a mochila da WB-40!!) e... claro! ao rapaz da GSA, que tem uma paciência incomensurável à minha espera, que me serve de guia, e que, quando eu falho (quase nunca, quase nunca!), em vez de me dizer "desiste", me diz "tu és capaz!". 

Voltamos outra vez no próximo!

Boas curvas!

 

 

 

 

 

 

 

15
Jun16

18.º Lés a Lés - por detrás do rímel

Dora Sofia

Foi no momento em que o alarme tocou pelas cinco da manhã que eu tive consciência da dose de loucura que era necessária para, num dia feriado, me levantar àquela hora e andar 550 km, sem outro propósito que não fosse andar de mota, andar de mota e andar de mota.

Confesso que rosnei mentalmente uns quantos impropérios ao marido pelo terrível feitio de querer ser sempre dos primeiros em tudo, obrigando-nos aqui a um número de equipa matutino, mas tão matutino que, por pouco, não saíamos no dia anterior. Por várias vezes, nesse dia e no dia seguinte, haveria de engolir os tais impropérios e agradecer não ter de esperar em filas ou correr o risco de andar de mota colada ao meu top-case.

O dia ainda não tinha clareado na Praia dos Pescadores, quando saímos em direção aos muitos quilómetros até ao Luso.

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 O primeiro desafio veio com as curvas do Caldeirão. O rapaz lá seguiu à velocidade da sua 1200, e eu fui rolando à velocidade do meu tempo, que é o tempo de quem não sabe muito de motas, mas sabe que quer chegar. A parte boa do Lés-a-Lés é que há sempre alguém à tua velocidade, ou mais devagar, ou mais depressa. Entre 1550 motas há sempre uma para te acompanhar e nunca andas sozinha.

Parámos na Barragem do Roxo, com direito a estrada de terra batida, pó e ervas secas. E, se é verdade que posso até dispensar os saltos altos, não dispenso a elegância. Por isso, um momento para retocar o batom, que isto de andar de mota não é só pó e cabelos sujos no final do dia e uma mulher, motociclista ou não, gosta de ficar bem na fotografia.

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 No Torrão, tivémos de passar numa viela estreitinha, estreitinha, sem recorrer à ajuda do doutor, lá no fundinho, que auxiliava os necessitados com um bocadinho de vaselina ou um "bico de pato" para as meninas.

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Parámos em Pavia, num controlo, e quase que conseguíamos ter uma fotografia da Anta...

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Conheço bem estes caminhos: Pavia, Arraiolos... são nomes de outos anos, em que o Alentejo era uma casa alugada, cheia de estar sozinha. Hoje, percorro os caminhos com outros olhos. No Castelo de Arraiolos, à saída, sou desafiada por uns degraus para galgar.

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Mesmo antes de entrar no caminho de terra batida que leva à Ribeira da Margem, uma mulher tira fotografias. Hesito. O caminho é longo e não consigo ver muito além. A mulher, provavelmente habituada a fazer o caminho em cima de um jipe, ou de um trator, e conduzida, certamente, por alguém, garante-me que a estrada é boa. E é boa (eu até gosto de caminhos)... até à ribeira!Os rapazes que vêm depois de mim deixam-se ficar para trás, não vá o diabo tecê-las. O marido vai dizendo o que eu tenho de fazer "dá-lhe gás, miúda!". Paro um momento. Hesito. Olho em frente e sigo.

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Um pouco mais à frente a areia está solta demais, mas, ainda assim, sigo com à-vontade. Há uma miúda estendida na berma do caminho, duas ou três motas paradas e o meu rapaz diz-me para continuar, que ela não está sozinha, mas é mais forte do que eu: desvio os olhos um segundo, apenas um segundinho, tenho a certeza, e a Branquinha desequilibra-se. Deixo-a tombar e fico de pé a olhar para ela. É aqui que eu preciso de um homem. Alguém tem de a levantar, verificar que está a trabalhar, a travar, e, claro! siga para cima dela que há muito quilómetro para fazer. Segundo desafio superado!

Já a visita à ponte Filipina sobre o rio Zêzere foi um percurso mais difícil. Um engano que acabou bem. Se eu teria ido até lá baixo, se soubesse o que tinha pela frente? Não, não teria. Se eu voltaria a ir lá abaixo assim que acabei? Sim, teria! Foi alucinante demais. A adrenalina de uma montanha russa, com partes feitas de costas, e quedas livres no vazio como as do elevador da Disney (quem lá foi sabe do que estou a falar!). 

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Na ponte, o engano continuava, com todos a garantirem que o pior já tinha passado. Eu acreditava. Afinal não imaginava que subir fosse mais difícil do que descer (sim, eu tenho uma questãozinha com as curvas em descidas íngremes, principalmente quando o asfalto é de pedras soltas e data de 1610). No entanto, aqui o subir também tem o seu quê de experiência... que eu não tenho. Valeram-me as indicações do meu instrutor permanente: "primeira a fundo, miúda! desvia-te do buraco! olha a areia na curva! olha o gancho apertado! faz a curva por fora!"

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 Cá em cima, suspiro longo! Um sorriso orgulhoso instala-se-me no rosto e pausa para comer, para beber e respirar fundo! 

A seguir, mais curvas até Góis. Outra vez cada um de nós segue ao seu ritmo. Estivemos em Góis em agosto, mas não cheguei a entrar no motoclube. Hoje há pastéis de nata bem quentinhos e a saber a canela. Que maravilha!O marido vai convivendo com os residentes...

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Já estamos perto da Mata Nacional do Bussaco. Ele parte outra vez a curtir as descidas e eu curto-as também, mas mais devagar. Enquanto espera por mim, aproveita para tirar fotografias:

 

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À chegada do Hotel Palace há mais tempo para fotografias. O sol começa a desaparecer e eu começo a agradecer por ser uma das primeiras equipas a chegar.

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Há um pequeno mimo à nossa espera, à porta do Museu Militar. Brindamos ao fim desta etapa maravilhosa e desafiante.IMG_9233.JPG

 Cá em baixo, no Luso, estão os braços dos meus amorzinhos à espera.

Há música boa a tocar, há sol a esconder-se atrás dos prédios, há gente que chega feliz. Estendo as pernas, bebo uma cerveja e sinto o calor dos sorrisos dos que amo.

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Amanhã é outro dia. Amanhã há mais histórias, aventuras e viagens para contar.

Boas curvas!

 

09
Abr16

Quando a chuva te dá... sol!

Dora Sofia

Estava cheiiiinha de saudades da Branquinha.

Fui buscá-la, mesmo debaixo da ameaça da chuva (aqui, lá, e pelo caminho), mesmo debaixo da previsível impossibilidade de andar nela nos próximos dias (esta chuva nunca mais nos vai deixar???), mesmo tendo de fazer a viagem sozinha... E fui!

Foi a minha primeira grande viagem sozinha. Bem, não sei se pode considerar-se grande, mas pelo menos 200 quilómetros é mais do que o meu costume. E, além disso, adorei!

Visitei a maninha que nunca me tinha visto de capacete e batom, ao vivo, e que aproveitou para fazer uma mini-sessão fotográfica. Gosto tanto do que os olhos desta fotógrafa conseguem ver em mim 

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Pelo caminho tive de parar para vestir mais uma camisola, que isto de andar de mota com este frio não é para "meninas", e deliciei-me com um café solitário. Eu gosto de cafés solitários.

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E mesmo no final da viagem, o sol veio receber-me à porta de casa, a lembrar-me que quem não sai de casa por medo da chuva, também não encontra o sol!! 

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Por falar em sol, depois desta viagem, e porque, na verdade, andava tristinha, tristinha, resolvi que o Lés-a-Lés à pendura ainda não é uma história assim tão concluída... Agora que já tenho aqui, de novo, a minha Branquinha, vamos ver que episódios podemos escrever juntas, até porque, como eu digo sempre, a pergunta não é "quantos quilómetros já fizeste?", mas, sim, "quantos quilómetros ainda vais fazer?"

 Ah! Estão a ver o chão debaixo da Branquinha? É o parque de estacionamento (enorme!!) em frente à Quinta dos Loridos. Desafiei-me e dei duas ou três voltas pela área. Apeteceu-me ainda mais uma GS (Geland/Strasse). Os caminhos são TÃO tentadores!...

 

Boas curvas!

 

 

16
Mar16

O dia em que fui às compras...e gostei!

Dora Sofia

Não gosto de ir às compras. Aliás, ir às compras está no meu top de "coisas que detesto-evito-e-só-faço-quando-sou-obrigada" Mais um pequeno contributo para a minha incapacidade para falar sobre o tempo. Vocês imaginam lá as conversas que é possível ter quando se gosta de ir às compras? Pois... eu não gosto!

Mas desta vez foi diferente. Fui às compras de mota.

Aproveitei umas curvas, encarei uma rotundas de cidade e estacionamentos (está melhor, mas não está bom!) e entrei na loja de motas munida de capacete no braço tal como cowboy de pistola na ponta dos dedos... Os clientes, que por lá paravam, olharam para mim e desviaram, imediatamente, o olhar para a porta... O costume! Aguardam o condutor.

Avancei com passos firmes, bem, avancei com passos tão firmes como os que é possível ter quando estás vestida à astronauta, e segui até ao balcão. Depis, vejo pelo canto do olho a cena que se repete, igual a todas as outras vezes em que ando sozinha e páro em algum lado.  A espera pelo condutor, a espreitadela, mal disfarçada, pela janela para ver qual é a minha mota, o olhar outra vez para mim... E, pronto, não é uma gs, ainda!, mas dá para o meu sorrisinho interior. 

Pedi o que tinha para pedir e comprei um "apetrecho" para a Branquinha. Foi fácil comprar. Tinha mesmo de comprar. Eu sei que os defensores das naked dizem que os vidros lhes assentam mal, que estragam a estética e não sei o quê... para mim, está ótima assim: já consigo passar dos 120, sem ficar com um ombro deslocado, e, se eu me esforçar muito, MUITO, MUITO, até fica mais parecida com uma GS!

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Boas curvas!

03
Jan16

Entre curvas: do Oeste à Beira Baixa

Dora Sofia

O dia estava carregado de promessas: estava garantido o tempo necessário de viagem sem chuva ou vento; os miúdos entregues aos avós; o roadbook elaborado; o óleo na corrente (ups!!)... e o sol a brilhar!

 

Mas, como sempre, do outro lado da montanha, nada é como parece ser. Ao fim da meia dúzia de quilómetros que nos separa do cume da Serra de Montejunto, o nevoeiro instalou-se a ensombrar a primeira parte da viagem. Em Santarém pouco vimos, mas fica a vontade de voltar, as casas anunciam-se glamorosas e as ruas repletas de coisas para descobrir. Perdemo-nos no nevoeiro e as portas do sol encontraram-nos por acaso, mas do sol nada! apenas portas... do nevoeiro...

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Já em Almourol, o sol espreitou por minutos. O tempo suficiente para um cházinho na esplanada e umas fotografias...

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Era preciso continuar. A fome levou-nos até ao "Pezinhos no Rio" em Constância, uma esplanada sobre o rio, com um bom bife e um preço bastante em conta, se considerarmos a localização maravilhosa ,e onde o rapaz que nos atendeu fez questão de salientar "sou  um rapaz simpático, mas a inteligência não é o meu forte" e nós concordámos, pois se o fosse ele não diria tal pérola. De notar: os gatos! há mil gatos a passear pelas ruas e, claro, há Camões!

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Próxima paragem: Vila de Rei, Centro Geodésico de Portugal. Não era uma primeira vez, mas de mota, já o disse, tudo é uma primeira vez. descer aquela estradinha, cheia de gravilha e caruma, com umas quantas curvinhas acentuadas foi uma novidade. Acho que, tal como qualquer motard, se os houvesse a assumirem a sua inexperiência, ao contrário do "a descer todos os santos ajudam", a minha grande aventura são as descidas com curvas... Mas em breve viria a perceber como é que a coisa se faz, se não fosse pelas explicações e conselhos detalhados do meu PMT (personal motorcycle trainer) seria pela quantidade de curvas que o trajeto seguinte impunha. 

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A ideia era dormirmos numa aldeia perdida entre montes e montanhas do concelho de Oleiros, onde residem habitualmente meia dúzia de habitantes, e cujo caminho para lá se carateriza pela emblemática resposta à questão "O que é que há na Urraca a seguir a uma curva? Outra curva!!!"

 

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A Urraca é uma aldeia onde ainda encontramos algumas casinhas em pedras, mas muito poucas; a migração dos habitantes para outras terras levou-os a reconstruir e construir casas sem a manutenção das caraterísticas originais. Em contrapartida, as pessoas continuam bem originais e a nossa chegada é sempre um acontecimento, quer tenhas lá estado há dois anos ou há dois dias atrás. Os habitantes (muito poucos!) abrem-te as portas de casa e tens de beber, e tens de comer, e tens de conversar, mesmo!, porque rede de internet só há em esquinas fugidias e o televisor, nos dias em que há visitantes (nós!), é um móvel decorativo para colocar naperons de croché e fotografias antigas.

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Já do caminho de regresso pouco há a contar. A chuva afirmou-se como companheira desde o início e eu percebi que, se não me incomodava particularmente com ela enquanto pendura, como condutora  o discurso não é o mesmo... A meio do caminho optámos pela auto-estrada e aí também não fiquei fã. Andar um pouco mais depressa com a minha Branquinha é um verdadeiro exercício de força de braços, peito, pescoço... 

Foi a minha primeira longa viagem. Tenho a certeza que será a primeira de muitas, porque a vontade tem espírito indomável!!

 

Boas curvas!

 

 

 

19
Dez15

Uma mão cheia de... vento

Dora Sofia

Hoje a minha branquinha foi à escola. Entre reuniões, avaliações e relatórios não sobrou tempo para fotografias, mas pelo curto caminho de casa até lá ia pensando no Natal. Pensei em prendas. Pensei naqueles que ainda não aprenderam o valor das prendas. Eu, cá por mim, sou tão feliz com um punhado de vento no rosto...

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 Querido Pai Natal,

neste Natal, eu quero o vento no rosto, a certeza do caminho para percorrer, a vontade para construir o meu tempo, o amor para me acompanhar e quero, sempre, sempre,o sorriso dos meus filhos nos meus olhos a brilhar.

 

 

Boas curvas!

04
Dez15

Hoje não é esse dia

Dora Sofia

15 dias (muitas curvas e alguns quilómetros) depois, a vontade continua inalterada. Aprende-se a andar de mota, andando, e é isso que tenho feito. Tenho aprendido a andar de mota. E isso é bom. É muito bom. 

 

Aprendi que as luvas são umas ótimas aliadas, que os punhos aquecidos são milagrosos e que, quanto mais andas, mais te apetece andar.

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Aprendi que dois motociclistas é melhor do que um.

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Aprendi que os camiões são mesmo grandes, quero dizer, são mesmo enormes quando estão ao teu lado e não há nada a separar-te deles... Aprendi que aquilo que se vê a andar de carro não é aquilo que se vive a andar de mota, pois passas pelas coisas, pelas árvores, pelas terras e pelos caminhos, como se os vivesses.

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Aprendi que aquele momento em que chegas ao fim do caminho (que, afinal, e felizmente, nunca é o fim do teu caminho) e em que tiras o capacete, te sentes maravilhosa e agradeces ao vento por te ter despenteado e agradeces ao sol aquecer-te as faces arrefecidas pelo vento.

 

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Sim, talvez haja um dia em que eu não vou ter vontade de andar de mota, mas hoje não é esse dia!IMG_20151204_161923.jpg

 

Boas curvas!

20
Nov15

Dia de treino #2

Dora Sofia

 

 

 

E no fim de uma hora de mototerapia ficas a saber que precisas de comprar umas luvas, porque o sol a brilhar não te aquece os dedos, quando o vento passa por eles veloz; ficas a saber que os cães gostam de correr atrás das motas, e que tens de ter coragem para não te desviares deles (mas sem os atropelares...). Para além disso, o Oeste é muito bom para andar de mota. Há montes, montanhas, paisagens maravilhosas e... curvas, muitas curvas!!

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Boas curvas!

09
Nov15

A primeira vez

Dora Sofia

Tinha 18 anos quando sonhei em ter mota. Quis tirar a carta de mota. O meu pai disse que não, que não entendia para quê, que não me serviria para nada, que não pagava. E não pagou. E eu fui para as vindimas, levantar-me de madrugada, sentir o barro que se pega às botas quando chove, e sentir o mosto que se cola à pele quando o sol aquece, para ganhar dinheiro para tirar a carta. Penso que foi a primeira vez, ou talvez a única, em que "desobedeci" ao meu pai, em que me "independentei" do meu pai...

Durante muitos anos, ele acreditou que teve razão... que não me serviria para nada. 

Durante muitos anos, eu acreditei que haveria de passear na minha mota. Deixar-me ir com ela, sem destino, ou com destino disfarçado de sem destino, como nos parecem sempre os destinos de andar de mota. 

Hoje demos a nossa primeira voltinha.

Tenho 41 anos, a provar que os sonhos não têm prazo de validade... 

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Boas curvas!

 

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